Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Visionários

Carolina Maria de Jesus e o Quarto de Despejo

Catadora de papel na favela do Canindé, Carolina escrevia em cadernos achados no lixo. O diário virou Quarto de Despejo, traduzido para mais de 13 línguas.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, neta de escravizados. Estudou só até o segundo ano do primário. Mudou-se para São Paulo e, nos anos 1950, vivia na favela do Canindé, à beira do rio Tietê, criando sozinha três filhos com o que ganhava catando papel e ferro-velho.

O não

O não, na vida de Carolina, tinha muitas formas: a fome, a pobreza, o preconceito contra uma mulher negra e favelada que dizia ser escritora. Ela escrevia em cadernos que encontrava no lixo. Vizinhos zombavam. Quem ia levar a sério o diário de uma catadora?

No diário, ela anotou a fome com uma precisão que ninguém tinha escrito antes. Numa entrada de 10 de maio de 1958, escreveu: "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças."

O que fizeram

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi ao Canindé fazer uma reportagem para a Folha da Noite e conheceu Carolina e seus cadernos. Publicou trechos do diário em maio de 1958 e, depois, na revista O Cruzeiro. Dantas selecionou passagens de cerca de vinte cadernos e organizou o livro.

Quarto de Despejo: diário de uma favelada foi publicado em agosto de 1960 pela Livraria Francisco Alves. A primeira tiragem, de 10 mil exemplares, esgotou em uma semana. O livro foi traduzido para mais de 13 línguas e virou referência da literatura brasileira. O título vem da própria Carolina, que chamava a favela de "quarto de despejo" da cidade.

A fama não resolveu tudo. Carolina publicou outros livros com menos sucesso e morreu em 1977, em situação modesta. Nas últimas décadas, a obra dela foi redescoberta, reeditada e estudada em universidades.

O que isso tem a ver com Bairo

A frase "a fome também é professora" é uma das que mais aproximam Carolina da visão de Bairo Leandro Gonzalez Martinez. Ele conta que aprendeu mais nas quedas do que nos acertos, e que cada não deixou um tijolo. Está em O não é a base do sim.

Há uma ponte mais concreta. A frente humanitária de Bairo, o Instituto CEASA, propõe ampliar o acesso a alimento a partir do excedente das centrais de abastecimento, com um projeto de alimento de longa duração em desenvolvimento. É uma proposta, não um resultado, e é descrita no capítulo Um corpo inteiro.

Bairo não se compara a Carolina. Lembra dela porque ela provou que a voz de quem passou pelo pior pode mudar o modo como um país enxerga a si mesmo.

Uma data ligada a esta página: 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação.

Fontes