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Mestre Bimba e a capoeira que era proibida
A capoeira era crime no Código Penal de 1890. Mestre Bimba criou a Regional, abriu academia em Salvador e, em 1937, conseguiu a licença de funcionamento.
Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, nasceu em Salvador, na Bahia, em 23 de novembro de 1899 ou 1900; as fontes divergem sobre o ano. Começou na capoeira ainda menino, numa época em que praticá-la podia dar cadeia.
O não
O não, para a capoeira, estava escrito na lei. O Código Penal de 1890, o primeiro da República, punia no artigo 402 quem fizesse nas ruas e praças "exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação de capoeiragem". A capoeira, nascida entre africanos escravizados e seus descendentes, era tratada como caso de polícia.
Não era só a lei. Era o preconceito: a capoeira era vista como coisa de desordeiro, de gente perigosa, de rua.
O que fizeram
Bimba respondeu com método. Por volta de 1928 e 1929, desenvolveu um estilo próprio, que chamou de Luta Regional Baiana, mais tarde conhecido como capoeira Regional. O nome evitava a palavra proibida. Ele criou uma sequência de ensino, regras de conduta para os alunos e uma forma de treinar que levou a capoeira para dentro de uma academia.
Em 1932, fundou em Salvador o Centro de Cultura Física Regional. Em 1937, segundo a Fundação Mestre Bimba, a academia foi a primeira de capoeira a obter alvará de funcionamento. Nos anos 1930, Bimba e seus alunos se apresentaram para o interventor da Bahia, Juracy Magalhães, e em 1953, segundo a mesma fundação, para o presidente Getúlio Vargas, que teria dito que a capoeira era o único esporte verdadeiramente nacional.
Bimba morreu em 5 de fevereiro de 1974, em Goiânia. Quarenta anos depois, em 2014, a roda de capoeira foi reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da humanidade. A capoeira, que já tinha sido crime, virou patrimônio do mundo.
O que isso tem a ver com Bairo
Esta é a ponte mais pessoal da história de Bairo Leandro Gonzalez Martinez. Antes da língua, antes do país, veio o ritmo do berimbau. A capoeira foi a primeira coisa do Brasil que ele, um menino colombiano, aprendeu com o corpo. A capoeira foi a ponte.
O que Bairo carrega da capoeira é a ginga, o movimento que nunca para. E o que ele reconhece em Mestre Bimba é o caminho de transformar um não escrito na lei num sim reconhecido pelo mundo: com método, disciplina e paciência, sem negar a origem.
Bairo não se diz mestre de nada. Presta homenagem a quem abriu a porta por onde muita gente, inclusive estrangeiros como ele, chegou ao Brasil pelo corpo antes de chegar pelo mapa.
Leia: A capoeira foi a ponte · Um nome, quatro presenças
Fontes
- Fundação Mestre Bimba: https://fundacaomestrebimba.org.br/mestre-bimba/
- Wikipédia, Mestre Bimba: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mestre_Bimba
- Capoeira Regional: https://en.wikipedia.org/wiki/Capoeira_Regional
- Código Penal de 1890 (Decreto 847), art. 402: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/d847.htm
- UNESCO, Roda de capoeira (2014): https://ich.unesco.org/en/RL/capoeira-circle-00892
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