Bairo GonzalezLeandro · Martinez

No mundo · Migração · 30 de abril de 2026

Venezuelanos no Brasil: refúgio e a Operação Acolhida

Cerca de 680 mil venezuelanos vivem no Brasil, e a Operação Acolhida já levou mais de 150 mil para 1,1 mil cidades. O que funcionou e o que falta.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Os venezuelanos formam hoje a maior comunidade imigrante do Brasil. O 12º Relatório Anual do OBMigra, apresentado em 30 de abril de 2026, estima cerca de 680 mil venezuelanos vivendo no país no início de 2026, com mais de 201 mil trabalhando com carteira assinada em 2025. Boa parte chegou pela fronteira de Roraima e foi recebida pela Operação Acolhida, a resposta humanitária federal criada em 2018, que já levou mais de 150 mil pessoas de Roraima para outras cidades do país.

O que aconteceu

A Operação Acolhida começou em abril de 2018, quando a chegada de venezuelanos a Pacaraima e Boa Vista superou a capacidade de Roraima. Ela é coordenada por um comitê federal com vários ministérios, executada em campo pelas Forças Armadas e apoiada por agências da ONU, como o ACNUR e a OIM, e por organizações da sociedade civil. Trabalha em três eixos: ordenamento da fronteira, abrigamento e interiorização.

A interiorização é a parte mais conhecida. Venezuelanos que aceitam são levados a outras cidades por quatro caminhos: transferência de abrigo para abrigo, reunificação familiar, reunião com amigos e conhecidos, ou vaga de emprego sinalizada por uma empresa. Os marcos mostram o ritmo:

  • 100 mil interiorizados em março de 2023, em mais de 930 municípios, segundo a OIM;
  • 150 mil em junho de 2025, segundo o governo federal;
  • mais de 157 mil, em mais de 1,1 mil municípios, até janeiro de 2026, segundo o ACNUR.

Os dados de 2025 do OBMigra mostram uma mudança de fase. Os venezuelanos continuam sendo os que mais se regularizam no país e ficaram com 89,8% dos 9,2 mil reconhecimentos de refúgio concedidos no ano. Mas os pedidos caíram: os registros de residência de venezuelanos vêm diminuindo desde 2023, os cubanos passaram à frente nos novos pedidos de refúgio, e os vistos de acolhida humanitária caíram de 10 mil em 2023 para 1,5 mil em 2025.

Por que importa

A parte mais original da Operação Acolhida é a interiorização. Em vez de concentrar dezenas de milhares de pessoas numa fronteira pobre, o Brasil as distribuiu para onde havia trabalho. O resultado aparece no mercado formal: em 2025, os venezuelanos lideravam entre os imigrantes com carteira assinada, e os estados do Sul concentraram dois terços das vagas criadas para imigrantes.

O desafio agora é o depois. O perfil da comunidade venezuelana tem muitas mulheres e crianças, e o OBMigra pede políticas específicas para esses grupos. Nas cidades que recebem, faltam atendimento em espanhol e acesso a crédito para quem quer empreender. Os venezuelanos já são a maior origem de MEIs estrangeiros no país, com 25% do total, segundo o Sebrae.

Na visão de Bairo

Bairo Leandro Gonzalez Martinez é colombiano, vizinho de fronteira da Venezuela, e vive no Brasil desde 2002. A história dele não é de refúgio e não se confunde com a de quem fugiu de uma crise humanitária. Mas, na leitura dele, há uma coisa que une todo imigrante que chega: o momento em que a pessoa entende que vai ter de começar do zero, numa língua que ainda não é a dela.

Para Bairo, a interiorização mostrou algo que vale para qualquer recomeço: quem recebe uma chance perto do trabalho levanta mais rápido. Ele costuma dizer que o sol é para todos, mas a sombra, no calor, é para poucos. Na leitura dele, a Acolhida foi uma forma de o país oferecer um pouco dessa sombra a quem chegou sem nada.

O começo da história dele está em A capoeira foi a ponte, e o recomeço, em O sol é para todos.

Onde isso encontra o ecossistema

O Instituto CEASA, projeto humanitário fundado por Bairo, propõe transformar o excedente das centrais de abastecimento em alimento que dura até dois anos fora da geladeira. A proposta é ampliar o acesso à comida, e abrigos e centros de acolhida são exatamente o tipo de lugar onde um alimento assim faria diferença. É um projeto em implantação.

O CLAIN propõe agentes de IA de nicho em espanhol para orientar sobre documentos, trabalho e serviços públicos, sempre encaminhando para os canais oficiais e com uma pessoa responsável pela decisão.

Fontes

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