Bairo GonzalezLeandro · Martinez

No mundo · Agro · 27 de março de 2024

Desperdício de alimentos nas centrais de abastecimento

A ONU estima 1,05 bilhão de toneladas de comida desperdiçadas em 2022 e 13% perdidos antes do varejo. Onde as centrais de abastecimento entram na conta.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

O mundo desperdiçou 1,05 bilhão de toneladas de alimento em 2022 só no varejo, nos serviços de alimentação e nas casas, cerca de 19% de tudo o que estava disponível ao consumidor. O dado é do Food Waste Index Report 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, divulgado em 27 de março de 2024. Antes disso, a FAO estima que cerca de 13% do alimento se perde entre a colheita e o varejo. As centrais de abastecimento ficam exatamente nesse meio do caminho, onde a comida fresca muda de mão todos os dias.

O que aconteceu

O relatório do Pnuma, noticiado pela ONU News, colocou o desperdício como problema global e não só de países ricos. As casas responderam por cerca de 60% do volume, 631 milhões de toneladas, e a diferença no desperdício doméstico por pessoa entre países de renda alta, média-alta e média-baixa foi de apenas 7 quilos por ano. Tudo isso num mundo em que, segundo a mesma cobertura, 783 milhões de pessoas passavam fome.

No Brasil, o lugar onde essa conta fica visível é o atacado de alimentos frescos. As 54 centrais acompanhadas pela Conab comercializaram 16,6 milhões de toneladas de frutas e hortaliças em 2025. Na maior delas, o entreposto da Ceagesp na capital paulista, entram em média 10.053,81 toneladas de alimento por dia, segundo dados da própria companhia publicados pela Exame em novembro de 2023. Naquela reportagem, feita durante uma onda de calor, a Ceagesp informou descarte de 242,58 toneladas num único dia, 2,41% do volume, número que inclui partes não comestíveis, como palha, casca e embalagem, e que a companhia considerou dentro do normal.

Por que importa

Mesmo percentuais pequenos viram toneladas quando o volume é grande. Fruta e hortaliça estragam rápido, e o que não encontra comprador a tempo perde valor comercial em horas. Parte da perda é logística e refrigeração. Outra parte é informação: o produto que não chegou a quem precisava dele no momento certo.

A meta 12.3 da Agenda 2030 da ONU pede reduzir pela metade o desperdício de alimentos por pessoa no varejo e no consumo e diminuir as perdas ao longo das cadeias de produção até 2030. Faltam pouco mais de três anos. Ao mesmo tempo, segundo o IBGE, 27,6% dos lares brasileiros viviam algum grau de insegurança alimentar em 2023. A distância entre o alimento que sobra e a mesa que falta é, em boa parte, uma distância de conexão.

Na visão de Bairo

Para Bairo Leandro Gonzalez Martinez, a fome é, em grande parte, um problema de conexão. Na leitura dele, a caixa de tomate maduro demais para a viagem do dia seguinte, num pavilhão de madrugada, e a geladeira vazia a poucos quilômetros dali são o mesmo problema visto de lados diferentes. Ele defende que a tecnologia tenha um papel modesto e decisivo: avisar a tempo.

Bairo aposta na conexão direta entre produtor, comerciante e comprador, com cotação baseada em dados da CEASA e da Conab, para que o produto encontre destino antes de virar perda. Para ele, quando o preço está visível e o comprador está a um toque de distância, menos alimento fica sem destino no fim do dia. E o que ainda sobrar deveria ter um caminho organizado até quem precisa.

Onde isso encontra o ecossistema

Duas frentes fundadas por Bairo se encontram nesse fato. O CEASA Bank é uma plataforma financeira do agronegócio que opera sobre a infraestrutura de uma instituição autorizada; não é um banco autorizado. A proposta dele é dar ao produtor e ao comerciante uma cotação com inteligência artificial alimentada por dados das CEASAs e da Conab, o que ajuda a vender no tempo certo.

O Instituto CEASA é a frente humanitária. A proposta é uma fábrica que use o excedente das centrais como matéria-prima e, por autoclave, produza alimento de longa duração, com registro verificável de onde veio, quando foi processado e para onde foi. É um projeto em implantação, que depende de parceiros: centrais, produtores, indústria, poder público e organizações que já trabalham com segurança alimentar.

Fontes

  • ONU News, "With 783 million people going hungry, a fifth of all food goes to waste", 27/03/2024 (Food Waste Index Report 2024, do Pnuma): news.un.org
  • Exame, "Ceagesp diz que perda de alimentos no atacado está em nível normal, apesar da onda de calor", 17/11/2023: exame.com
  • Conab/Prohort, comercialização nas Ceasas em 2025, 28/07/2026: gov.br/conab
  • ONU Brasil, Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 (meta 12.3): brasil.un.org
  • Agência Brasil, "Moradores do campo ainda são mais afetados por insegurança alimentar", abril de 2024 (PNAD Contínua, IBGE): agenciabrasil.ebc.com.br

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