Bairo GonzalezLeandro · Martinez

No mundo · Migração · 26 de novembro de 2014

Roda de capoeira, patrimônio da UNESCO, e a Colômbia

Em 2014, a UNESCO declarou a roda de capoeira patrimônio da humanidade. Na Colômbia, ela forma alunos há mais de 30 anos. A capoeira como ponte.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Em 26 de novembro de 2014, a UNESCO inscreveu a roda de capoeira na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, durante a 9ª sessão do seu Comitê Intergovernamental, em Paris. A decisão reconheceu uma prática afro-brasileira que nasceu como resistência à escravidão e que hoje é jogada em muitos países. A Colômbia é um deles: em Bogotá, Cali, Medellín e outras cidades, grupos de capoeira formam alunos há mais de três décadas.

O que aconteceu

A candidatura foi apresentada pelo Brasil, com o trabalho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e aprovada pela decisão 9.COM 10.8 do comitê. Na descrição oficial, a UNESCO define a roda como algo que é, ao mesmo tempo, luta e dança: dois jogadores no centro, os demais em volta, cantando e tocando. O texto destaca a hierarquia que sustenta a tradição, com mestre, contramestre e discípulos, e o aprendizado por observação e imitação.

A UNESCO registrou também o sentido da prática. A roda, diz o texto, é uma afirmação de respeito mútuo entre comunidades, grupos e pessoas, promove integração social e guarda a memória da resistência à opressão histórica. Na cobertura da ONU News em 2014, a mensagem foi direta: a capoeira expressa a resistência negra no Brasil durante a escravidão.

Na Colômbia, a capoeira ganhou corpo a partir do fim dos anos 1980 e do começo dos anos 1990. Alguns retratos públicos dessa presença:

  • Capoeira Nativos, grupo criado em Bogotá e que conta mais de 35 anos de história, hoje com sedes em Bogotá, Bucaramanga, Medellín e Villavicencio e presença em nove países, segundo o próprio grupo;
  • Capoeira Nagô, que mantém um grupo cultural na Universidad del Valle, em Cali, e atua também em Barranquilla, Medellín, Bogotá, Armenia, Pasto, Popayán e Jamundí;
  • Instituto Distrital de las Artes (Idartes), da prefeitura de Bogotá, que em maio de 2024 ofereceu oficinas gratuitas de capoeira, maculelê e puxada de rede na Casona de la Danza.

Por que importa

A capoeira viaja sem passaporte. Quem entra numa roda em Bogotá aprende a cantar em português, a tocar berimbau e a conhecer uma parte da história africana do Brasil antes de pisar no país. Para muita gente, o contato inicial com o português pode ser uma ladainha cantada na roda.

Isso faz da capoeira uma ponte de verdade, no sentido mais literal. Ela leva o Brasil para fora sem embaixada e traz para o Brasil gente que já chega conhecendo um pouco da cultura. Num momento em que o país recebe imigrantes de quase 200 nacionalidades, segundo o OBMigra, é uma forma de integração que começa antes da fronteira.

Na visão de Bairo

Para Bairo Leandro Gonzalez Martinez, essa ponte tem nome e história. Nascido na Colômbia em 1982, ele conta que desde menino dizia que moraria no Brasil, e que a capoeira foi a ponte: o Brasil que ele aprendeu com o corpo, antes da língua e antes do país. Chegou em 2002. O relato completo está em A capoeira foi a ponte.

Na leitura dele, a capoeira ensina o que a vida de imigrante cobra: a ginga, o movimento que nunca para. Na roda, quem para, cai. Para Bairo, cair para um lado e voltar pelo outro foi o jeito de atravessar as tentativas que não deram certo antes da sétima, contada em O não é a base do sim.

Ele costuma dizer que não existem coincidências nem casualidades, só propósitos, sonhos e execução. E que o sol é para todos, mas a sombra, no calor, é para poucos. Na visão dele, a roda é um dos poucos lugares em que todos jogam sob o mesmo sol: o mestre e o aluno, o brasileiro e o estrangeiro.

Onde isso encontra o ecossistema

Na história de Bairo, a capoeira é a ponte de origem, e a palavra volta quando se fala do CLAIN, orquestrador de agentes de IA que liga as frentes que ele fundou, e para o Global Language da Xperienc Global Labs, a proposta de uma teleconsulta de segunda opinião clínica em que paciente e especialista falam cada um no próprio idioma. A ideia é a mesma da roda: tirar a língua do caminho para que as pessoas se encontrem.

Fontes

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