Bairo GonzalezLeandro · Martinez

No mundo · Alimento · 28 de julho de 2026

Ceasas: 16,6 milhões de toneladas e a sobra do fim do dia

As 54 Ceasas acompanhadas pela Conab movimentaram 16,6 milhões de toneladas de hortifrúti em 2025. Quanto se descarta, para onde vai e o que falta medir.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

As centrais de abastecimento do Brasil comercializaram 16,6 milhões de toneladas de frutas e hortaliças em 2025, num valor de R$ 68,7 bilhões, segundo balanço da Conab divulgado em 28 de julho de 2026. Uma parte desse volume não é vendida a tempo e vira descarte. Quanto exatamente, no país inteiro, ainda não há uma medida pública única.

O que aconteceu

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) acompanha, pelo programa Prohort, o movimento das centrais de abastecimento, as Ceasas, onde produtores e atacadistas vendem o hortifrúti que abastece feiras, sacolões, mercados e restaurantes das cidades. O balanço de 2025, publicado pela Conab, cobre 54 centrais e traz estes números:

  • Volume total: 16,6 milhões de toneladas de frutas e hortaliças.
  • Valor: R$ 68,7 bilhões.
  • Ceagesp, em São Paulo: 2,99 milhões de toneladas, num valor de R$ 13,9 bilhões, o maior volume entre as centrais avaliadas.
  • Sudeste: 52% do volume e 54% do valor.
  • Hortaliças: queda de 2,8% no volume, atribuída ao clima adverso.

O balanço mede o que foi vendido, não o que sobrou. A perda aparece em outros registros. Em novembro de 2023, durante uma onda de calor, a Ceagesp informou que o descarte no entreposto da capital paulista estava em nível considerado normal, perto de 2% do que entra. Em 15 de novembro daquele ano, segundo a Exame, foram descartadas 242,58 toneladas, de uma média diária de 10.053,81 toneladas que chegam ao entreposto, ou 2,41%. A companhia explicou que o calor acelera a perda de água e de nutrientes do produto, e que o número inclui partes não comestíveis, como palha e cascas.

Parte do que não é vendido, mas ainda serve, segue para doação. O Banco Ceagesp de Alimentos, criado em 2003, funciona no entreposto da capital e em outras 11 unidades no interior paulista. Em setembro de 2026, segundo a própria Ceagesp, o banco atendia 329 entidades e outros 18 bancos de alimentos na Região Metropolitana de São Paulo.

Por que importa

Dois por cento parece pouco. Mas a conta muda de escala quando se olha o volume. Só como ilustração, e não como dado oficial: se uma taxa parecida valesse para o ano inteiro da Ceagesp, seriam perto de 60 mil toneladas de frutas, verduras e legumes descartados em um único entreposto. A conta é nossa e serve apenas para mostrar a ordem de grandeza. O número real depende de como cada central mede, do clima de cada semana e do que é parte comestível.

A falta de uma medida nacional é, ela mesma, uma notícia. O Brasil sabe com precisão quanto se vende nas Ceasas e sabe muito menos sobre quanto se perde nelas. Sem esse número, é difícil planejar para onde levar o excedente, de que tamanho fazer um banco de alimentos ou onde instalar uma estrutura de aproveitamento.

Na visão de Bairo

Bairo Leandro Gonzalez Martinez conhece as centrais por dentro. Foi para quem produz, vende e compra nelas que ele desenhou o CEASA Bank, e é nelas, ele conta, que passou a ver o avesso da fome: no fim do expediente, comida boa sobrando porque não foi vendida a tempo.

Para Bairo, a Ceasa é o lugar certo para atacar o problema porque concentra muito alimento num só ponto, todos os dias. Na leitura dele, em vez de buscar sobras espalhadas por milhares de mercados, uma estrutura de aproveitamento pode ficar ao lado de onde o excedente se forma. Ele vê no trabalho dos bancos de alimentos que já existem nas centrais a prova de que o caminho funciona, e acha que ele pode ganhar escala com informação e com indústria.

Onde isso encontra o ecossistema

O Instituto CEASA propõe uma fábrica junto às centrais que transforme o excedente ainda bom em alimento estável, processado em autoclave. O projeto está em implantação, e a meta de um alimento que dure até dois anos fora da geladeira depende de estudo de estabilidade e de registro sanitário. Site informado: institutoceasa.org (site em construção).

O CEASA Bank, plataforma financeira do agronegócio que opera sobre infraestrutura de instituição autorizada, propõe uma peça que falta: dados. Um comerciante que registra preço, volume e prazo de venda gera, sem esforço extra, a informação de que a sobra precisa para encontrar destino antes de virar descarte.

Fontes

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