Bairo GonzalezLeandro · Martinez

No mundo · Alimento · 28 de julho de 2025

Brasil fora do Mapa da Fome: o que a saída diz e o que falta

Em julho de 2025, a FAO confirmou o Brasil fora do Mapa da Fome, e em 2026 o país seguiu fora. O que o indicador mede e quem ainda passa aperto.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 28 de julho de 2025, quando o relatório SOFI 2025, da FAO e de outras quatro agências das Nações Unidas, mostrou a subalimentação no país abaixo de 2,5% da população na média de 2022 a 2024. Um ano depois, o SOFI 2026 confirmou que o país continua fora. Sair do mapa, porém, não quer dizer que todos comem bem.

O que aconteceu

O Mapa da Fome reúne os países em que mais de 2,5% da população vive em subalimentação crônica, ou seja, não consome calorias suficientes para uma vida ativa e saudável de forma habitual. O cálculo usa a média de três anos. O SOFI 2025 foi lançado em Adis Abeba, na Etiópia, durante a segunda revisão da Cúpula dos Sistemas Alimentares da ONU, e mostrou o Brasil abaixo da linha na média de 2022 a 2024.

Foi a segunda vez. O país havia deixado o mapa em 2014 e voltou a ele no fim da década, quando a média dos anos de crise ultrapassou o limite. Um estudo da Consultoria Legislativa do Senado Federal, publicado em setembro de 2025, atribui a nova saída a um conjunto de medidas: transferência de renda, valorização do salário mínimo, alimentação escolar e compra de alimentos da agricultura familiar.

Em julho de 2026, o SOFI 2026 manteve o Brasil abaixo de 2,5%, agora na média de 2023 a 2025. Segundo a Agência Brasil, o relatório estima em 9,6% da população, cerca de 20,3 milhões de pessoas, os brasileiros em insegurança alimentar moderada ou grave, e em 0,6%, cerca de 1,2 milhão, os que vivem a forma grave. Já 21,1% da população, perto de 44,8 milhões de pessoas, não conseguem pagar por uma dieta saudável.

A medida brasileira, feita pelo IBGE com uma escala própria, aponta na mesma direção. Na PNAD Contínua do quarto trimestre de 2024, divulgada em outubro de 2025, a insegurança alimentar grave caiu para 3,2% dos domicílios, o menor valor da série, segundo o IBGE. Ainda assim, 24,2% dos lares viviam algum grau de insegurança alimentar, e a Região Norte tinha 6,3% de lares em insegurança grave, contra 1,7% no Sul.

Por que importa

O Mapa da Fome mede a falta de calorias. É um indicador importante, mas estreito. Ele não mostra quem come o suficiente em quantidade e ainda assim come mal, nem quem pula refeições em alguns meses do ano. Por isso os próprios relatórios da ONU acompanham, ao lado da subalimentação, a insegurança alimentar e o acesso a uma dieta saudável.

Milhões de brasileiros deixaram a fome em poucos anos. Mas uma em cada cinco pessoas ainda não consegue pagar por uma dieta com fruta, verdura e proteína suficientes, e a fome grave continua mais presente no Norte e no campo.

Na visão de Bairo

Para Bairo Leandro Gonzalez Martinez, a saída do Brasil do Mapa da Fome é uma conquista que merece ser celebrada, de políticas públicas, da agricultura familiar e da sociedade. Na leitura dele, ela também mostra o tamanho do próximo passo: depois de garantir a caloria, o desafio é garantir a qualidade, e a qualidade passa justamente pelos alimentos frescos, os mais difíceis de levar longe.

Colombiano que, como ele conta, chegou ao Brasil em 2002, Bairo costuma olhar a fome pelo lado da conexão. Para Bairo, o país produz comida em escala, e o que ainda falha é o caminho entre a sobra de um lugar e a falta de outro. É desse olhar que nasce a imagem que ele usa para o Instituto CEASA, a de um lugar onde a fome deixa de ser o problema e a dor, sempre como proposta, nunca como resultado.

Onde isso encontra o ecossistema

O Instituto CEASA propõe usar o excedente das centrais de abastecimento como matéria-prima de alimento estável, que não dependa de geladeira, pensado para regiões onde a cadeia de frio é o gargalo, como boa parte do Norte e do campo. O projeto está em implantação, e a meta de durabilidade de até dois anos depende de estudo de estabilidade e de registro sanitário. Site informado: institutoceasa.org (site em construção).

A rastreabilidade da doação, de onde veio o alimento, quando foi processado e para onde foi, é outra proposta: registrar cada etapa na BTZ Chain, rede de registro em desenvolvimento, para que quem doa e quem fiscaliza vejam o mesmo caminho.

Fontes

Leia também