Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Dor e fé · Dor

Quando procurar ajuda profissional para a dor emocional

Fé e força de vontade ajudam, mas têm limite. Os sinais de que é hora de procurar um profissional, onde achar ajuda de graça no Brasil e o CVV 188.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Existe um tipo de coragem que ninguém aplaude: a de admitir que não está dando conta sozinho.

Em muitas famílias brasileiras, pedir ajuda para a cabeça ainda soa como fraqueza, frescura ou falta de fé. Ouve-se "isso passa", "reza que melhora", "homem não chora", "pensa positivo". Quem sofre aprende a esconder, e a dor cresce no escuro.

Esta página existe para dizer o contrário, com todas as letras: procurar um profissional de saúde mental é um ato de cuidado, e não contradiz nenhuma fé. Muitos líderes religiosos sérios encaminham fiéis a psicólogos e psiquiatras. A oração e o consultório cabem na mesma vida.

Os sinais

Ninguém precisa esperar o fundo do poço. Alguns sinais indicam que é hora de procurar ajuda.

Quando a tristeza não sai. Desânimo, vazio ou irritação na maior parte dos dias, por duas semanas ou mais, sem melhora.

Quando o prazer some. As coisas que antes davam alegria, um jogo, uma comida, uma conversa, já não dizem nada.

Quando o corpo reclama. Sono que não vem ou que não acaba. Apetite que sumiu ou que não para. Cansaço que nenhum descanso resolve.

Quando a vida para. Faltar ao trabalho, largar os estudos, não conseguir cuidar de si, da casa ou dos filhos.

Quando a ansiedade manda. Medo constante, coração disparado, falta de ar, crises que parecem de morte, evitar sair de casa.

Quando o socorro vira problema. Beber, usar substâncias, apostar ou comprar para aguentar o dia.

Quando a perda não se move. Luto que, depois de muitos meses, continua paralisando a vida.

Quando aparece a vontade de não estar aqui. Pensamentos de morte, de sumir, de que os outros estariam melhor sem você. Esse sinal não espera: é para agora.

Se for agora

Se você está pensando em tirar a própria vida, ou teme que alguém próximo esteja, não espere a consulta.

  • CVV, 188. O Centro de Valorização da Vida atende de graça, 24 horas, por telefone, e também por chat em cvv.org.br. Do outro lado há um voluntário treinado para ouvir, sem julgar.
  • SAMU, 192, ou o pronto-socorro mais próximo, se houver risco imediato.
  • Fique perto. Se o risco é de outra pessoa, não a deixe sozinha, afaste o que possa ser usado para se ferir e chame ajuda.

Falar sobre suicídio não coloca a ideia na cabeça de ninguém. Perguntar com cuidado "você tem pensado em se matar?" pode ser a porta que a pessoa esperava.

Onde achar ajuda no Brasil

O Sistema Único de Saúde tem uma rede de atenção psicossocial, gratuita.

  • Unidade Básica de Saúde (posto de saúde). É a porta de entrada. O médico de família avalia e, se precisar, encaminha.
  • CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial. Atendem casos mais graves e persistentes, e alguns funcionam 24 horas. Há CAPS específicos para álcool e outras drogas e para crianças e adolescentes.
  • Clínicas-escola. Faculdades de psicologia costumam oferecer atendimento gratuito ou a preço social, feito por estudantes supervisionados.
  • Planos de saúde são obrigados a cobrir consultas de psiquiatria e sessões de psicoterapia.

Psicólogo e psiquiatra fazem coisas diferentes e complementares. O psicólogo trabalha com psicoterapia, a conversa estruturada que ajuda a entender e mudar padrões. O psiquiatra é médico: avalia, diagnostica e, quando necessário, prescreve remédio. Muitas vezes o melhor resultado vem dos dois juntos.

E a fé, onde fica?

Fica junto. A pesquisa mostra que a fé vivida como abrigo e comunidade costuma ajudar no enfrentamento do sofrimento. Mas ela não substitui o tratamento, assim como ninguém deixa de engessar um braço quebrado porque rezou.

Se alguém da sua comunidade disser que procurar um psicólogo é falta de fé, procure outra voz. Uma fé madura não tem medo da ciência, e um bom profissional respeita a fé do paciente. Vale dizer isso na primeira consulta: a sua crença faz parte de quem você é, e o profissional deve levá-la em conta.

Fontes: CVV, Centro de Valorização da Vida · Ministério da Saúde, prevenção do suicídio · Organização Mundial da Saúde, suicídio · Koenig, religião, espiritualidade e saúde, 2012

Na história de Bairo

Bairo Leandro Gonzalez Martinez conta a própria história sem esconder o fundo do poço: falido, quebrado, sem plano na gaveta. Ele encontrou a fé, e ela foi decisiva no caminho dele. Mas ele faz questão de que a história não seja lida como um "eu consegui sozinho, você também consegue".

Uma parte do que o reergueu, diz ele, veio de outras pessoas: os testemunhos que ouviu, e mais tarde três velhos conhecidos, Marcio, Ricardo e Caio, que se juntaram a ele. Aceitar ajuda foi, nas palavras dele, uma das coisas mais difíceis para quem tinha sido deixado na mão. Foi também uma das que mais mudaram tudo.

Para você

Se você se reconheceu em algum dos sinais, marque uma consulta esta semana. No posto de saúde, num CAPS, numa clínica-escola, com o médico do seu plano. Leve escrito o que está sentindo, há quanto tempo, e o que já tentou.

Se for difícil dar esse passo, conte a uma pessoa de confiança e peça que ela vá com você.

E se a noite estiver mais pesada que tudo, ligue 188 agora. A ligação é gratuita e ninguém vai pedir o seu nome.

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