Dor e fé · Psicodélicos
Psicodélicos: o que a ciência sabe em 2026
Psilocibina e MDMA voltaram aos laboratórios. O que os ensaios mostram em depressão e trauma, por que nenhum foi aprovado ainda e quais são os riscos.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Poucos assuntos da medicina mudaram tanto de lugar em tão pouco tempo.
Nos anos 1950 e 1960, substâncias como o LSD e a psilocibina, o composto ativo de certos cogumelos, foram estudadas por psiquiatras sérios em vários países. Depois vieram o uso descontrolado, o pânico moral e as leis. Em 1971, uma convenção da ONU colocou essas substâncias na lista mais restrita, e a pesquisa praticamente parou por três décadas.
No começo deste século, universidades como a Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e o Imperial College, em Londres, voltaram a estudá-las com os métodos modernos. Em 2026, a pergunta já não é se elas têm algum efeito. É para quem, em que condições, com que riscos e com que regras.
O que os ensaios mostram
Psilocibina e depressão resistente. Em 2022, um estudo publicado no New England Journal of Medicine testou a psilocibina sintética da empresa Compass Pathways em 233 pessoas com depressão que não tinha melhorado com outros tratamentos. Com uma dose única, administrada em ambiente clínico e com apoio psicológico antes, durante e depois, cerca de 29% dos que receberam a dose mais alta estavam em remissão três semanas depois. Desde então, a empresa anunciou dois ensaios de fase 3 com resultados positivos, um em 2025 e outro em 2026, e iniciou o pedido de registro na FDA, a agência de medicamentos dos Estados Unidos.
Psilocibina contra antidepressivo comum. Em 2021, também no New England Journal of Medicine, pesquisadores do Imperial College compararam a psilocibina ao escitalopram, um antidepressivo muito usado, em 59 pessoas. Na medida principal, não houve diferença estatística entre os dois. Algumas medidas secundárias favoreceram a psilocibina, mas os autores pediram estudos maiores e mais longos.
MDMA e estresse pós-traumático. O MDMA, associado à terapia, mostrou resultados promissores em dois ensaios de fase 3. Mesmo assim, em agosto de 2024, a FDA recusou a aprovação. Um comitê de especialistas da agência tinha votado 10 a 1 contra, citando dúvidas sobre o desenho dos estudos, sobre o fato de os participantes perceberem se tinham tomado a substância ou não, e sobre relatos de condutas inadequadas em sessões. A agência pediu um novo ensaio.
Ayahuasca. Um ensaio brasileiro, feito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e publicado em 2019, testou a ayahuasca em 29 pessoas com depressão resistente. A história completa, e o que a lei brasileira permite, está em Ayahuasca no Brasil: o que a lei permite.
Até o começo de outubro de 2026, nenhum psicodélico clássico tinha sido aprovado pela FDA como medicamento. A psilocibina da Compass é a mais próxima: a própria empresa projeta uma decisão entre o fim de 2026 e o começo de 2027.
Por que o ambiente importa tanto
Os ensaios não testam só a substância. Testam um pacote: triagem médica cuidadosa, várias sessões de preparação com terapeutas, a sessão em si num ambiente controlado e acompanhado por horas, e sessões depois para integrar a experiência. Os pesquisadores chamam isso de set and setting, o estado de quem toma e o lugar onde toma.
É por isso que um resultado de laboratório não se transfere para uma festa, um retiro sem médico ou um quarto sozinho. A mesma substância, fora desse pacote, é outra coisa.
Os riscos, em linguagem humana
Os pesquisadores da Johns Hopkins publicaram, em 2008, diretrizes de segurança que ainda orientam o campo. Elas existem porque os riscos são reais.
- Crise psicológica aguda. Medo intenso, pânico, confusão, sensação de estar enlouquecendo ou morrendo, que podem durar horas.
- Risco de psicose. Pessoas com esquizofrenia, transtorno bipolar ou histórico desses quadros na família são excluídas dos estudos, porque a substância pode desencadear ou piorar uma crise.
- Coração e pressão. Psicodélicos aumentam pressão e frequência cardíaca. Quem tem doença cardíaca precisa de avaliação. A ibogaína, em especial, pode causar arritmias graves e está ligada a mortes na literatura médica.
- Interações. Combinações com alguns antidepressivos, com lítio e com outras substâncias podem ser perigosas. Só um médico, conhecendo todos os remédios da pessoa, pode avaliar.
- Pensamentos suicidas. Nos ensaios de depressão, alguns participantes tiveram pensamentos ou comportamentos suicidas no acompanhamento, como acontece em qualquer estudo com pessoas gravemente deprimidas. Por isso o seguimento depois da sessão é parte do tratamento.
- Vulnerabilidade. Durante o efeito, a pessoa fica sugestionável e exposta. Houve casos de abuso em sessões, inclusive em contexto de pesquisa.
Fontes: Goodwin e colegas, NEJM, 2022 · Carhart-Harris e colegas, NEJM, 2021 · MAPS, carta de recusa da FDA ao MDMA · Johnson, Richards e Griffiths, diretrizes de segurança, 2008 · PBS NewsHour, riscos da ibogaína
Na história de Bairo
Bairo Leandro Gonzalez Martinez conta que, num momento da sua busca espiritual, participou de cerimônias com a ayahuasca, em contexto ritual. Ele fala disso como parte da própria travessia, e só dela. Não indica a ninguém, não fala em resultado e não mistura esse capítulo com o trabalho das empresas que fundou.
Ele acompanha com interesse o que a ciência está descobrindo, porque vê nesse campo a mesma coisa que viu na própria vida: perguntas sérias, que merecem método, e não preconceito nem euforia. Para ele, o lugar dessas substâncias, se um dia elas tiverem lugar na medicina, é o da pesquisa, da regra e do médico responsável.
Para você
Se você leu sobre psicodélicos e pensou "talvez isso seja para mim", leve essa pergunta a um psiquiatra. No Brasil, psilocibina e MDMA são proibidos fora de pesquisa autorizada, e os estudos clínicos recrutam participantes por meio de universidades e comitês de ética.
Não tente reproduzir sozinho o que viu em reportagem. A diferença entre o ensaio e a aventura é justamente tudo o que protege a pessoa.
E se a depressão está pesando agora, existem tratamentos aprovados, eficazes e acessíveis pelo SUS. Se pensar em desistir da vida, ligue 188.