Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Dor e fé · Dor

Luto e fé: como a crença acompanha a perda

O luto é amor sem endereço. O que a ciência sabe sobre fé e luto, quando o luto vira transtorno e como atravessar a perda de alguém ou de um sonho.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Alguém disse um dia que o luto é o amor que ficou sem endereço. Continua ali, inteiro, mas não tem mais para onde ir.

Toda pessoa vai viver isso. A morte de alguém querido é a forma mais conhecida, mas não a única. Há o luto de um casamento, de uma empresa fechada, de um país deixado para trás, de um filho que foi morar longe, da saúde que não volta, do sonho que não aconteceu. Ninguém precisa enterrar alguém para saber o que é perder.

E, desde sempre, a humanidade tem levado o luto para dentro da fé. Os ritos de despedida estão entre as práticas humanas mais antigas que se conhecem. Esta página pergunta o que a fé faz com o luto, com respeito a quem crê e a quem não crê.

O que a pesquisa encontrou

Em 2007, uma equipe da Universidade de Freiburg, na Alemanha, com a pesquisadora Irene Higginson, do King's College de Londres, fez uma revisão sistemática na revista Palliative Medicine. Reuniu 32 estudos, com 5.715 pessoas enlutadas, e perguntou: crenças religiosas ou espirituais mudam o luto?

Em 94% dos estudos apareceu algum efeito positivo das crenças. Parece uma resposta fechada, mas os autores foram cuidadosos: os estudos eram muito diferentes entre si, mediam coisas distintas, e boa parte tinha falhas de método. A conclusão deles foi que os dados ainda não permitiam uma resposta definitiva. O que dá para dizer é que, para muita gente, a fé parece ajudar a dar sentido à perda e a não ficar sozinho com ela.

A mesma pesquisa sobre enfrentamento religioso que vale para outras dores vale aqui. A fé que consola, que oferece comunidade, ritual e esperança, tende a ajudar. A fé que acusa, que transforma a morte em castigo ou culpa, tende a pesar. Quem já ouviu num velório que "faltou oração" sabe o tamanho do estrago que uma frase pode fazer.

Quando o luto se transforma em doença

O luto não é doença. Chorar meses depois, sentir a ausência em datas e cheiros, conversar com quem partiu: tudo isso faz parte do amor que continua.

Mas existe um ponto em que a dor não se move. Em 2022, a Associação Americana de Psiquiatria incluiu no seu manual, o DSM-5-TR, o transtorno do luto prolongado. A Organização Mundial da Saúde já o tinha incluído na CID-11. Nele, a saudade intensa e a preocupação constante com quem morreu duram muito além do esperado para a cultura da pessoa (doze meses ou mais em adultos, pelo manual americano; seis, pela OMS) e vêm com outros sinais: sensação de que parte de si morreu, incapacidade de sentir alegria, entorpecimento, dificuldade de seguir a vida.

Ter um nome para isso não é rotular a dor de ninguém. É abrir a porta para um tratamento que existe e funciona. Terapias específicas para o luto prolongado foram testadas em ensaios clínicos, e um psicólogo ou psiquiatra pode avaliar o caso.

O que a fé oferece

Para quem crê, a fé costuma oferecer três coisas que nenhum remédio dá.

Um lugar para o amor. Muitas tradições ensinam que o vínculo não termina com a morte. Pesquisadores do luto chamam isso de vínculos contínuos, e hoje entendem que manter uma ligação simbólica com quem partiu pode ser saudável.

Um rito. Velório, missa de sétimo dia, culto, reza, vela acesa. O ritual dá forma ao que não tem forma, marca o tempo e reúne quem está sofrendo.

Uma comunidade. O vizinho que leva comida, o irmão de igreja que aparece sem avisar, o grupo que lembra o nome de quem partiu. O luto pesa muito mais no isolamento.

Para quem não crê, os três podem ser construídos de outro jeito: escrever para quem partiu, criar um ritual próprio na data, juntar os amigos para contar histórias. O luto não pede religião. Pede companhia.

Fontes: Becker e colegas, Palliative Medicine, 2007 · Associação Americana de Psiquiatria, transtorno do luto prolongado · Ano e Vasconcelles, enfrentamento religioso, 2005

Na história de Bairo

A história de Bairo Leandro Gonzalez Martinez é feita de lutos que não aparecem em atestado. A Colômbia que ele deixou para viver o sonho do Brasil. O negócio que fechou com cinquenta pessoas dependendo dele. As ideias que disseram que não dariam certo e que ele viu, anos depois, virarem tendência. Os sócios que foram embora.

Ele conta que não sabia nomear o que sentia. Sabia que estava perdendo a capacidade de desejar. Foi numa congregação cristã, ouvindo histórias de quem tinha perdido muito e seguido em frente, que ele encontrou um lugar para pôr aquele amor sem endereço: o sonho que não morreu, só tinha ficado soterrado. A fé, na leitura dele, não apagou as perdas. Deu a elas um sentido que ele ainda não conseguia ver.

Para você

Se você perdeu alguém ou alguma coisa, dê tempo ao tempo e não se cobre um prazo. Não existe jeito certo de sofrer.

Procure quem ouve sem consertar. Diga o nome de quem partiu em voz alta. Se a sua fé consola, apoie-se nela. Se ela acusa, converse com alguém de confiança sobre isso.

Mas fique atento aos sinais: se, passado um bom tempo, a vida parou, nada traz alegria, o sono e o trabalho desmoronaram, procure um profissional de saúde mental. E se surgir a vontade de não estar mais aqui, ligue 188, o CVV, a qualquer hora. Ou procure um pronto atendimento.

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