Dor e fé · Dor
Como a dor pode virar propósito: o que a ciência sabe
Crescimento pós-traumático existe, e metade das pessoas o relata. Mas não apaga a dor, não é obrigação e não vem do nada. O que Frankl e a ciência ensinam.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Em 1945, um psiquiatra austríaco saiu de um campo de concentração tendo perdido quase todos: a mulher, os pais, o irmão. Pouco depois, em nove dias, ditou um livro. Viktor Frankl chamou-o, na edição brasileira, de Em busca de sentido. A pergunta que atravessa o livro é simples e terrível: por que alguns, mesmo diante do pior, não perdiam a razão de viver?
A resposta dele, construída dentro do arame farpado, foi que o ser humano pode perder tudo, menos a liberdade de escolher a atitude diante do que lhe acontece. E que quem encontra um sentido, uma pessoa a quem voltar, uma obra a terminar, consegue suportar quase qualquer como.
Oitenta anos depois, a ciência tem um nome para uma parte do que Frankl viu.
Crescimento depois do trauma
Nos anos 1990, dois psicólogos da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun, começaram a ouvir pessoas que tinham atravessado perdas graves: viuvez, doenças, acidentes. Muitas diziam algo que a psicologia não sabia classificar. Que a dor tinha sido enorme, e que mesmo assim tinham saído dela com alguma coisa nova.
Em 1996, eles publicaram no Journal of Traumatic Stress um questionário para medir isso, e deram ao fenômeno o nome de crescimento pós-traumático. Ele aparece em cinco áreas: mais apreço pela vida, relações mais próximas, sensação de força pessoal, novas possibilidades e mudança espiritual ou existencial.
Quanto isso é comum? Uma meta-análise publicada em 2019 no Journal of Affective Disorders reuniu estudos com mais de 10 mil pessoas que viveram traumas. Cerca de 52% relataram crescimento moderado a alto. Metade. Não todos, não a maioria esmagadora, mas muita gente.
O que o crescimento não é
Aqui a pesquisa é tão importante quanto a inspiração, porque a ideia de que "tudo acontece por um motivo" pode virar uma arma contra quem sofre.
Não apaga a dor. Tedeschi e Calhoun insistem que crescimento e sofrimento convivem. A pessoa pode ter descoberto uma força nova e continuar chorando de saudade. Uma coisa não desmente a outra.
Não é obrigação. Quem não sente que cresceu com a perda não fracassou. Exigir de alguém que transforme a própria dor em lição é cruel. Às vezes o máximo que se pode fazer é sobreviver, e sobreviver já é muito.
Não vem do nada. Os estudos sobre crescimento pós-traumático mostram que ele costuma estar ligado a apoio social, a poder falar sobre o que aconteceu e a um trabalho mental lento, de revisar crenças que a perda quebrou. Não é um estalo. É um caminho.
Não depende de fé, mas a fé pode ajudar. A mudança espiritual é uma das cinco áreas medidas. Para quem crê, a fé pode oferecer moldura para reler a perda. Para quem não crê, o sentido pode vir do outro, de uma obra, de um compromisso.
Do sentido para o serviço
O ponto em que a dor vira propósito, na experiência de muitos e na teoria de Frankl, quase sempre passa por outra pessoa. A mãe que perdeu o filho e cria uma associação. O dependente em recuperação que vira padrinho de outro. O empreendedor quebrado que passa a ensinar o que aprendeu a quem está começando.
Não é que a dor tenha valido a pena. Ninguém precisava ter sofrido aquilo. É que, já que aconteceu, ela pode ser posta para trabalhar a favor de alguém. É uma escolha, e só a própria pessoa pode fazê-la, no tempo dela.
Fontes: Tedeschi e Calhoun, Journal of Traumatic Stress, 1996 · Wu e colegas, prevalência de crescimento pós-traumático, 2019 · Instituto Viktor Frankl, Viena
Na história de Bairo
Bairo Leandro Gonzalez Martinez costuma dizer que achou a dor como base. A frase pode soar dura, mas, contada por ele, tem um sentido preciso: cada queda deixou uma informação que ele não teria de outro jeito.
Ele não diz que as quedas valeram a pena. Diz que, depois delas, passou a olhar para o trabalho de outro jeito. Ao contar a própria trajetória, ele lembra que todos os projetos que fundou giram em torno de vida humana, de história e de algo que nunca mais volta: o tempo. A experiência de ouvir tantas vezes que as ideias dele não dariam certo virou a frase que hoje é a assinatura dele: o não é a base do sim. E a frente humanitária que ele fundou, o Instituto CEASA, nasce de uma proposta que ele resume assim: ampliar o acesso a alimento, para que a fome deixe de ser mais uma dor na vida de quem já tem muitas.
O fecho da história dele, como ele mesmo a conta, é esse: quem procurou a própria melhor versão passa a procurar a melhor versão dos outros. É o serviço que Frankl apontava.
Para você
Se você está no meio da dor, não se cobre propósito agora. Primeiro, cuide da ferida: durma, coma, peça ajuda, converse.
Quando houver um pouco de chão, experimente três perguntas, com calma e por escrito. O que essa perda me mostrou sobre o que é importante para mim? Quem está passando hoje pelo que eu passei? O que eu sei agora que poderia ajudar essa pessoa?
Não precisa virar uma fundação. Pode ser uma conversa, uma mensagem, uma hora por semana. O propósito costuma começar pequeno.
E se a dor não der trégua, procure um profissional. Se pensar em desistir da vida, ligue 188.