Dor e fé · Fé
Como a fé ajuda a atravessar a dor
O que a pesquisa sobre fé e enfrentamento mostra: a fé que acolhe alivia o sofrimento, a fé que castiga pesa. E o que isso vale para quem não crê.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
A dor de que esta página fala não aparece em exame de sangue.
É a dor de perder o negócio, a casa, o casamento, alguém que se amava. A dor de olhar para a própria vida e não reconhecer o caminho. A dor que tira o sono e o apetite, que faz a pessoa sorrir no trabalho e chorar no carro. Quando Bairo Leandro Gonzalez Martinez diz que a fé o ajudou a sair dessa dor, é dela que ele está falando.
E aqui a ciência tem coisa séria a dizer. Não para provar que Deus existe, que isso não é pergunta de laboratório, mas para mostrar o que acontece com as pessoas quando a fé entra na forma como elas enfrentam o sofrimento.
Fé como forma de enfrentar
Nos anos 1990, o psicólogo americano Kenneth Pargament, da Bowling Green State University, começou a estudar uma coisa que os psicólogos até então ignoravam: o que as pessoas religiosas fazem com a fé quando a vida aperta. Ele chamou isso de coping religioso, ou enfrentamento religioso, e percebeu que ele tem duas caras.
Uma é o enfrentamento positivo: buscar amparo em Deus, sentir-se parte de algo maior, rezar pedindo força, reler a situação como algo que pode ensinar, procurar a comunidade. A outra é o enfrentamento negativo, que ele chamou de luta espiritual: sentir-se abandonado ou castigado por Deus, achar que a desgraça é punição, brigar com a própria fé, sentir-se julgado pelo grupo.
Em 2005, os pesquisadores Gene Ano e Erin Vasconcelles juntaram 49 estudos sobre o tema numa meta-análise publicada no Journal of Clinical Psychology. O resultado foi claro na direção: o enfrentamento religioso positivo andava junto com menos sofrimento psicológico e mais bem-estar; o negativo andava junto com mais ansiedade, mais depressão e pior adaptação ao estresse.
Ou seja: não basta ter fé. Importa que fé é essa.
Quando a fé pesa
O lado difícil apareceu de forma dura num estudo de 2001, no Archives of Internal Medicine. Pargament e Harold Koenig, da Universidade Duke, acompanharam por dois anos idosos internados com doenças graves. Os que viviam uma luta espiritual intensa, com a sensação de terem sido abandonados ou punidos por Deus, tiveram risco maior de morrer no período, mesmo depois de descontados a gravidade da doença e o estado emocional.
É um estudo de associação, não de causa e efeito. Mas a lição para quem cuida de alguém é poderosa: uma fé que acusa pode machucar mais do que ajudar. Quem diz a uma pessoa em sofrimento "isso é castigo" ou "faltou fé" pode estar empurrando-a mais para o fundo.
A dor do corpo
E a dor física? Aqui a evidência é mais modesta, e é honesto dizer isso.
Num experimento de 2005, publicado no Journal of Behavioral Medicine, Amy Wachholtz e Pargament ensinaram 84 universitários a meditar vinte minutos por dia, durante duas semanas. Um grupo repetia uma frase espiritual, outro uma frase neutra, outro só relaxava. No fim, com a mão mergulhada em água gelada, o grupo da frase espiritual aguentou quase o dobro do tempo dos outros. É um estudo pequeno, em jovens saudáveis, em laboratório. Não diz nada sobre doença crônica, e ninguém deve trocar tratamento por ele.
Revisões sobre pessoas com dor crônica encontram associações entre espiritualidade, menos sofrimento emocional e melhor adaptação, mas pedem estudos mais fortes antes de qualquer conclusão. A fé não apaga a dor do corpo. O que os estudos sugerem é que ela pode mudar a relação da pessoa com a dor: menos desespero, menos solidão, mais sentido.
O que ajuda, mesmo para quem não crê
Quem não tem religião não fica de fora desta conversa. Parte do que faz bem no enfrentamento religioso tem equivalentes fora dele: pertencer a um grupo que acolhe, ter rituais que dão ritmo aos dias, encontrar sentido no que aconteceu, sentir-se ligado a algo maior do que o próprio problema, seja a família, a natureza ou uma causa. Quem não crê pode cultivar tudo isso, e merece o mesmo respeito.
E vale o contrário: a fé não substitui o cuidado. Os próprios pesquisadores que mais estudam o tema, como Koenig, defendem que a espiritualidade seja ouvida pelos profissionais de saúde, não que tome o lugar deles.
Fontes: Ano e Vasconcelles, meta-análise de 2005 · Pargament e colegas, Archives of Internal Medicine, 2001 · Wachholtz e Pargament, Journal of Behavioral Medicine, 2005 · Ferreira-Valente e colegas, revisão sobre espiritualidade e dor crônica
Na história de Bairo
A fé chegou para Bairo no fundo do poço, quando já não havia plano na gaveta. Ele conta que a encontrou numa congregação cristã, ouvindo testemunhos de gente comum que tinha atravessado o impossível. Primeiro passou a acreditar no Deus do impossível. Depois, no Deus do amor.
Repare na ordem: do impossível para o amor. É, sem que ele soubesse, o caminho que a pesquisa descreve como enfrentamento positivo. Não um Deus que castiga a queda, mas um Deus que acompanha a subida. Para Bairo, quem confia no seu Deus da criação está certo, qualquer que seja a crença. A fé que o reergueu não exclui ninguém.
Para você
Se você tem fé, observe que fé é a sua agora. Ela te dá abrigo ou te acusa? Se ela pesa, converse com alguém da sua comunidade em quem confia, ou com um profissional. Às vezes a imagem de Deus que carregamos foi desenhada pela dor, e não pela fé.
Se você não tem fé, procure os equivalentes: um grupo, um ritual, um sentido. Ninguém atravessa a dor bem acompanhado de si mesmo apenas.
E, em qualquer caso: se a dor estiver grande demais, ligue 188. O CVV atende 24 horas, de graça, sem perguntar no que você crê.