Dor e fé · A planta
A planta que o reconectou
Bairo conta que, no fundo do poço, a cannabis foi uma ponte para dentro de si. O relato dele, por que ele o conta e por que não é receita para ninguém.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Há histórias que um empresário prefere esconder. Esta, Bairo Leandro Gonzalez Martinez decidiu contar.
Não porque seja bonita, nem porque prove alguma coisa. Ele conta porque, quando alguém pesquisa o nome dele e encontra a palavra cannabis ao lado, merece saber de onde ela vem: de um homem quebrado que procurava silêncio, e não de um vendedor procurando cliente.
O homem que funcionava, mas não vivia
Quem lê a trajetória dele em Cinquenta vidas conhece o tamanho da queda: o negócio que ruiu, as pessoas que dependiam dele, os sócios que foram embora. O que a linha do tempo não mostra é o que acontece por dentro de quem cai tantas vezes.
Bairo descreve esse tempo com uma imagem simples. Ele continuava trabalhando, atendendo, recomeçando. Mas algo tinha se partido. Não no corpo: na ligação entre quem ele era e quem ele tinha virado. Ele diz que acordava já cansado, que os pensamentos chegavam todos ao mesmo tempo e que, quando tentava sonhar com o futuro, a imagem não vinha.
Muita gente conhece esse estado sem saber dar nome a ele. Médicos e psicólogos têm vários nomes, e só eles podem dizer qual se aplica a cada pessoa. Bairo não se apresenta como paciente nem como exemplo clínico. Ele se apresenta como alguém que estava no escuro e foi procurar uma fresta.
O que ele conta
Na busca interior que começou naquele período, contada no capítulo O Deus do impossível, Bairo se permitiu experiências com o óleo de cannabis. Ele não foi atrás de remédio para doença nenhuma. Foi atrás de silêncio.
O que ele relata, com as palavras dele, é que o barulho baixou. Não sumiu: baixou. Entre um pensamento e outro apareceu um intervalo, e nesse intervalo ele conseguiu se ouvir. Ele conta que se reergueu aos poucos. Que o que estava partido foi se juntando, peça por peça, como quem cola uma louça antiga sabendo que as marcas vão continuar ali. Que voltou a desejar coisas, a fazer perguntas e, mais difícil para quem foi traído, a aceitar ajuda.
Ele resume tudo numa frase que repete sempre: a planta foi ponte, não destino. A travessia, diz ele, foi dele. E a decisão de não desistir, essa ninguém pode tomar por ele.
O capítulo A planta e a reconexão conta essa travessia vista de dentro. Esta página conta por que ela é contada assim, com tantos cuidados.
Por que tanto cuidado
Porque uma vivência não é evidência. Uma pessoa que se sentiu melhor depois de qualquer coisa, seja um chá, uma oração, uma viagem ou um remédio, viveu algo verdadeiro para ela. Mas isso não diz o que vai acontecer com a próxima pessoa. Para saber isso existem os ensaios clínicos: muitas pessoas, grupos de comparação, dose medida, efeitos colaterais anotados, alguém que não sabe quem tomou o quê.
E porque Bairo hoje fundou uma empresa que trabalha com cannabis medicinal. No Brasil, a resolução da Anvisa que trata desses produtos, a RDC 1.015/2026, só permite que a propaganda se dirija a quem prescreve e a quem dispensa, nunca ao público. O Conselho Federal de Medicina, por sua vez, proíbe a divulgação de resultado como promessa. Um relato pessoal publicado pelo fundador, se fosse escrito como "funcionou comigo, funciona com você", viraria exatamente isso: um depoimento de resultado. Ele não quer que seja.
Por isso esta página não fala de marca, produto, dose, forma de uso nem onde conseguir. Por isso também ela não tem link para empresa nenhuma. A experiência dele fica de um lado; o trabalho das empresas, com ciência, regra e médico responsável, fica de outro.
O que a história dele não é
Não é uma promessa. Ninguém pode garantir que o que ajudou uma pessoa vai ajudar outra, e quem garante isso, em qualquer assunto de saúde, está vendendo alguma coisa.
Não é um conselho. Cannabis tem efeitos adversos conhecidos: sonolência, tontura, alteração de memória e de atenção, interação com outros medicamentos e, em algumas pessoas, piora de ansiedade ou sintomas psicóticos, principalmente em quem tem histórico na família. Produtos de cannabis exigem prescrição, e vários deles não combinam com volante, gravidez nem adolescência.
Não é uma explicação para tudo o que veio depois. O rumo que ele tomou do outro lado da ponte, diz o próprio Bairo, veio de uma fé encontrada em outro lugar, ouvindo histórias de gente comum. Essa fé tem página própria, e ele faz questão de que as duas coisas não se misturem.
Ele mesmo diz isso com uma frase humana: este foi o meu caminho, não é receita. Quem pensa em uso medicinal começa por uma consulta, porque é o médico, e não uma história, quem pode olhar para o seu corpo, a sua dor e os seus remédios.
Fontes: Anvisa, regras de 2026 para a cannabis medicinal · RDC 1.015/2026, texto em LegisWeb · NASEM, The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids (2017) · CFM, Resolução 2.336/2023
Na história de Bairo
Este é o ponto em que a história dele deixa de ser só de quedas. Antes, cada não chegava e já virava reação. Depois daquela travessia, ele conta, passou a existir um intervalo entre o golpe e a resposta, que a capoeira chama de ginga. Foi desse intervalo que saiu a coragem de passar seis meses em casa construindo o que ele não sabia construir, e de abrir a porta para três velhos conhecidos, Marcio, Ricardo e Caio.
Ele não esconde a planta e não a transforma em bandeira. Ela ficou onde ele a coloca: na ponte.
Para você
Se você está no ponto em que ele estava, funcionando por fora e partido por dentro, a primeira coisa a saber é que isso tem nome, tem tratamento e tem gente preparada para ajudar. Fale com um médico de família, um psicólogo ou um psiquiatra. Conte tudo, inclusive o que você já tentou por conta própria.
Se a cannabis medicinal faz parte da sua pergunta, leve a pergunta ao consultório. No Brasil, o caminho passa por prescrição e pelas regras da Anvisa, e o que a ciência já sabe está resumido em O que a ciência diz sobre cannabis medicinal.
E se a noite estiver pesada demais, ligue 188. O CVV atende de graça, a qualquer hora, por telefone e pelo chat em cvv.org.br.