Dor e fé · Psicodélicos
O que o governo dos EUA mudou sobre psicodélicos
Em abril de 2026, Trump assinou ordem para acelerar a pesquisa de psicodélicos. O que ela faz e não faz, e o papel de RFK Jr., da FDA e do Texas.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Circula nas redes uma frase que, como quase toda frase que viraliza, tem um pedaço de verdade e um pedaço de exagero: "até o Trump está liberando psicodélicos para tratar doenças".
O pedaço verdadeiro é grande. O governo dos Estados Unidos mudou de postura, entre 2025 e 2026, de um jeito que pouca gente imaginaria dez anos atrás. O pedaço exagerado também importa: nada foi liberado, e nenhum psicodélico clássico foi aprovado como remédio até o começo de outubro de 2026.
Esta página separa um do outro, com as fontes.
A ordem de 18 de abril de 2026
No dia 18 de abril de 2026, no Salão Oval, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva chamada, em tradução livre, "Acelerando tratamentos médicos para doenças mentais graves". Estavam presentes o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., o comissário da FDA, Marty Makary, o apresentador de podcast Joe Rogan e o ex-militar da Marinha americana Marcus Luttrell.
Segundo o resumo oficial da Casa Branca e a cobertura da imprensa, a ordem:
- manda a FDA conceder vouchers de prioridade nacional, que encurtam a fila de análise, a psicodélicos que já tenham a designação de terapia inovadora;
- cria um caminho, dentro da lei americana de "direito de tentar", para que pacientes elegíveis tenham acesso a psicodélicos ainda em análise que cumpram requisitos básicos de segurança, com menção expressa à ibogaína;
- destina 50 milhões de dólares, pela agência de pesquisa ARPA-H, para acompanhar investimentos de estados em pesquisa com psicodélicos;
- orienta o Departamento de Justiça a começar a revisão da classificação dessas substâncias assim que os ensaios de fase 3 terminarem, para que a reclassificação possa vir logo depois de uma eventual aprovação da FDA;
- prevê colaboração com o Departamento de Assuntos de Veteranos.
Na cerimônia, Trump disse que a ordem daria a pessoas com sintomas debilitantes a chance de "retomar a vida" e que, se esses remédios se mostrarem eficazes, terão "um impacto tremendo". Repare na condição: se. A ordem acelera a análise. Não substitui a análise.
O que veio antes
O Texas e a ibogaína. Em junho de 2025, o governador Greg Abbott sancionou a lei SB 2308, que destinou 50 milhões de dólares do estado a ensaios clínicos com ibogaína, uma substância de origem africana, para dependência de opioides, estresse pós-traumático e depressão. O foco declarado são veteranos e socorristas, com triagem cardíaca obrigatória.
Kennedy e o prazo de doze meses. Em 2025, já como secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr. disse ao Congresso que trabalhava para que uma terapia psicodélica fosse aprovada em doze meses, em ambiente clínico. Ele já tinha acusado a FDA de suprimir esse tipo de tratamento.
O MDMA recusado. A mudança de tom veio depois de um tropeço. Em agosto de 2024, ainda no governo anterior, a FDA recusou o MDMA para estresse pós-traumático, pedindo um novo ensaio. Em setembro de 2025, a agência tornou pública a carta com os motivos.
O que veio depois
Logo após a ordem, a FDA concedeu vouchers de prioridade a programas de psilocibina para depressão e a um composto para estresse pós-traumático, e autorizou o início de um ensaio com um derivado da ibogaína. Em julho de 2026, publicou a versão final da sua orientação sobre como desenhar ensaios com psicodélicos. Em 14 de setembro de 2026, fez uma audiência pública com cerca de 80 falas sobre formação de profissionais, segurança do paciente, acesso e padronização de dados.
A psilocibina sintética da Compass Pathways é a candidata mais avançada, com dois ensaios de fase 3 positivos e pedido de registro em andamento. A previsão da própria empresa é de decisão entre o fim de 2026 e o começo de 2027.
O que a ordem não muda
Não aprova nenhum remédio. A aprovação continua dependendo de ensaios e da análise técnica da FDA.
Não legaliza o uso. Psilocibina, MDMA, LSD e ibogaína continuam na lista federal mais restrita dos Estados Unidos.
Não apaga os riscos. Na cobertura da ordem, a imprensa americana lembrou que a ibogaína pode causar arritmias graves e está ligada a mais de 30 mortes descritas na literatura médica, e que os Institutos Nacionais de Saúde já tinham interrompido pesquisas com ela por toxicidade cardíaca. Cientistas de universidades como a Johns Hopkins apoiam a pesquisa, mas pedem rigor.
Não vale para o Brasil. Uma ordem do presidente americano não muda a lei brasileira.
Fontes: Casa Branca, resumo da ordem de 18/04/2026 · PBS NewsHour · NPR · Texas Tribune, lei SB 2308 · CNN, Kennedy e os psicodélicos, 2025 · MAPS, carta da FDA sobre o MDMA · Foley Hoag, audiência pública da FDA, 2026
Na história de Bairo
Bairo Leandro Gonzalez Martinez cita esse movimento como sinal dos tempos: assuntos que eram tabu há poucos anos chegando à mesa de quem decide. É o padrão que ele reconhece na própria trajetória, de ideias recebidas com um "não dá" que, anos depois, viram tendência.
Mas a lição que ele tira não é de pressa. É de método. A ordem americana não disse "use". Disse "pesquise mais rápido, com regra". É a mesma linha que ele defende para tudo o que toca saúde.
Para você
Se você leu que "os Estados Unidos liberaram psicodélicos", agora sabe o que de fato aconteceu: aceleraram a pesquisa e a análise, e prometeram rever a classificação se houver aprovação.
No Brasil, nada disso muda a regra. Psilocibina e MDMA continuam proibidos fora de pesquisa autorizada. Se a sua pergunta é sobre tratamento para depressão ou trauma, o lugar dela é o consultório, e existem tratamentos aprovados hoje. Se a dor estiver grande, ligue 188.