No mundo · Agro · 25 de maio de 2026
CPR, B3 e tokenização: o novo crédito do agro
A CPR virou o motor do crédito privado do agro, com estoque recorde e ofertas a pessoas físicas na B3. O que a tokenização acrescenta e o que a CVM exige.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
A Cédula de Produto Rural, a CPR, se tornou o principal caminho do dinheiro privado para o agro brasileiro. Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, publicado em 25 de maio de 2026, o estoque de CPR cresceu 18,3% até dezembro de 2025, enquanto o crédito rural tradicional mostrava piora nos indicadores de risco. Ao mesmo tempo, a B3 passou a registrar ofertas públicas de CPR para investidores pessoas físicas, e o mercado discute a tokenização desses recebíveis. A CPR é antiga; o que muda é quem financia o produtor e como esse título circula.
O que aconteceu
A CPR existe desde a Lei 8.929, de 1994: é um título em que o produtor se compromete a entregar produto, ou o valor equivalente, numa data futura. A Lei 13.986, de 2020, conhecida como Lei do Agro, modernizou o instrumento e tornou obrigatório o registro das cédulas em entidade autorizada, como a B3, regra em vigor desde 1º de janeiro de 2021.
Os números recentes mostram a escala. O estoque de CPR chegou a R$ 565,15 bilhões em maio de 2026, alta de 13%, o maior patamar da série, segundo reportagem do Canal Rural. A B3 informou que as ofertas públicas de CPR para pessoas físicas somaram R$ 6 bilhões desde agosto de 2025, em 14 emissões, com mais de 26 mil investidores. Para a bolsa, parte desse movimento veio da Resolução CMN 5.118, de 2024, que restringiu a emissão de CRA e redirecionou recursos para a CPR.
O relatório do Banco Central, noticiado pela CNN Brasil, descreve o contraste: no fim de 2025, CPR, CRA, FIDC e debêntures do agro cresciam, enquanto a carteira de crédito rural de pessoas físicas piorava e a LCA recuava. A tokenização entra nesse cenário como uma forma de registrar e distribuir frações desses recebíveis em rede digital. Para a CVM, o que define a regra é a natureza do ativo, não a tecnologia: o Parecer de Orientação 40, de 2022, deixa claro que um token que representa valor mobiliário segue as normas do mercado de capitais.
Por que importa
A CPR aproxima o produtor do investidor e diminui a dependência do banco. Mas ela não é igual para todos. Emitir uma CPR exige cadastro, garantia, registro e, nas ofertas públicas, uma estrutura que custa caro. Hoje, quem mais se beneficia são produtores e empresas de maior porte. O pequeno produtor, que vende na central de abastecimento, raramente tem o histórico organizado para emitir um título que alguém queira comprar.
A tokenização pode baratear a emissão, o registro e a distribuição, mas não resolve a origem do problema: um título só vale se o lastro for real e verificável. Sem dado confiável sobre o que foi produzido e vendido, tokenizar é só digitalizar uma promessa.
Na visão de Bairo
Para Bairo Leandro Gonzalez Martinez, a CPR é a prova de que o mercado aceita financiar o agro pela produção e não só pelo patrimônio. Na leitura dele, o passo que falta é levar esse instrumento a quem ainda está fora dele, e isso começa pelo dado. Ele defende que a venda real, registrada no momento em que acontece, seja a base de qualquer recebível.
Bairo aposta na conexão direta entre produtor, comerciante e comprador, com cotação calculada a partir de dados da CEASA e da Conab. Para ele, quando o preço é público e a venda é registrada, o lastro deixa de ser uma declaração e passa a ser um histórico. Na visão dele, a tokenização de ativos reais faz sentido no agro quando dá ao produtor acesso a recursos sem que ele precise comprometer a terra ou a casa.
Onde isso encontra o ecossistema
O CEASA Bank é uma plataforma financeira do agronegócio, fundada por Bairo, que opera sobre a infraestrutura de uma instituição autorizada. Não é um banco autorizado, nem plataforma registrada na CVM para ofertas públicas. Entre as propostas que o fundador descreve está a de oferecer recursos ao produtor por meio de tokenização de ativos reais, sempre dentro das regras da CVM, do Banco Central e do crédito rural, e com parceiros autorizados.
O desenho apoia essa proposta em dois pilares: a cotação com inteligência artificial alimentada por dados das CEASAs e da Conab, e o registro de cada operação na BTZ Chain, a rede de registro do ecossistema. É uma proposta em construção, que depende de autorização e de parceiros regulados para cada etapa.
Fontes
- Banco Central do Brasil, Relatório de Estabilidade Financeira, volume 25, maio de 2026: bcb.gov.br
- CNN Brasil, "Crédito rural piora enquanto mercado de capitais do agro avança, diz BC", 25/05/2026: cnnbrasil.com.br
- B3, Bora Investir, "Emissões de CPRs públicas na B3 somam R$ 6 bilhões", 2026: borainvestir.b3.com.br
- Canal Rural, "Estoque de Cédulas de Produto Rural registra aumento de 13%", 2026: canalrural.com.br
- Presidência da República, Lei 13.986, de 7 de abril de 2020: planalto.gov.br
- CVM, Parecer de Orientação 40, "Os criptoativos e o mercado de valores mobiliários", 11/10/2022: cvm.gov.br
Leia também
Mais sobre este tema
- Crédito rural e juros: a Selic cai, a inadimplência fica
- El Niño muito forte em 2026: o que muda na safra
- As Ceasas movimentaram R$ 68,7 bilhões em 2025
- Plano Safra 2026/27: R$ 525 bilhões e juro menor
- Acordo Mercosul–UE: aplicação provisória e o que falta
- PIB do agro cresce 12,2% em 2025, segundo o Cepea