Fé · ficção
Quando tudo desaba e ainda resta fé
Conto sobre um homem que perdeu quase tudo e entra numa igreja simples para ouvir histórias de gente comum que atravessou o impossível.
Uma visão — conto.
Ele entrou porque estava chovendo.
Foi o que disse a si mesmo, pelo menos. Estava andando sem rumo havia horas, desde que saíra do escritório do advogado com a pasta debaixo do braço e a certeza de que não sobrava mais nada. Não sobrava a empresa. Não sobrava o carro. Não sobrava o respeito do irmão, que tinha emprestado dinheiro e agora não atendia o telefone. Sobravam a pasta, a chuva e um par de sapatos que já deixavam a água entrar.
A porta da igreja estava aberta. Lá dentro, bancos de madeira, um piso de cerâmica muito limpo, e gente. Gente simples, de roupa de domingo numa quarta-feira à noite. Ninguém perguntou quem ele era. Um senhor de cabelo branco apenas se afastou um pouco no banco, para ele caber.
Ele sentou com a pasta no colo.
Não houve sermão longo. Houve pessoas que se levantavam, uma de cada vez, e contavam. Uma mulher contou que o filho tinha sumido por dois anos e voltado. Um rapaz contou que tinha passado fome e agora trabalhava numa padaria. Um homem da idade dele contou que tinha perdido tudo, exatamente tudo, e que tinha dormido numa rodoviária, e que um dia alguém lhe estendeu a mão sem perguntar nada.
Ele ouvia. Não acreditava em nada daquilo, ou achava que não acreditava. Mas ouvia.
Num momento, o senhor de cabelo branco a seu lado fechou os olhos, e ele, por imitação ou por cansaço, fechou também.
Foi quando a visão veio.
Viu um rio. Não um rio de água, um rio de pessoas, atravessando os séculos. Cada pessoa carregava um peso diferente nas costas. Uns levavam pedras, outros levavam crianças, outros levavam nada e pareciam os mais cansados. Todos atravessavam o mesmo lugar escuro, uma espécie de garganta entre montanhas, onde o rio ficava estreito e violento. Ele viu que alguns caíam. Viu que outros os levantavam. Viu que ninguém atravessava sozinho, mesmo os que achavam que sim.
E viu a si mesmo, ali, no meio do rio, com a pasta debaixo do braço.
Atrás dele, alguém que ele não conhecia. À frente, o homem que tinha dormido na rodoviária. E ele entendeu que a fé, naquele rio, não era uma ideia sobre Deus. Era a decisão de dar o passo seguinte sem ver a margem. Confiar em algo que não se vê. A margem existia, porque outros tinham chegado a ela. Ele só não conseguia enxergá-la ainda.
Abriu os olhos. O culto tinha acabado. As pessoas se cumprimentavam, perguntavam umas pelas outras. O senhor de cabelo branco pôs a mão no ombro dele e disse uma frase só:
— Volte quando quiser.
Ele saiu. Ainda chovia. A pasta continuava pesada, as dívidas continuavam do mesmo tamanho, o irmão continuava sem atender. Nada tinha mudado lá fora.
Mas ele andou até em casa de outro jeito. Não mais como quem foge. Como quem atravessa.
Em casa, mandou uma mensagem para o irmão. Não pediu desculpa nem explicou nada. Escreveu apenas: "Quando você puder, quero conversar". Deitou-se e, depois de semanas em claro, dormiu a noite inteira.
Bairo conta que, falido, encontrou numa congregação histórias de pessoas comuns que tinham atravessado o impossível, e que passou a confiar em algo que não se vê. Leia: O Deus do impossível.
O caminho
Fé, para quem crê e para quem não crê, pode ser a decisão de dar o próximo passo sem ver a margem. Ouça a história de quem já atravessou: ela é a prova de que a margem existe. Se o peso virar desespero, o CVV atende no 188, de graça, 24 horas, e pedir ajuda também é atravessar.