Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Fé · ficção

Ter fé sem religião

Conto em diálogo, em 2040, entre uma engenheira que não crê e o pai que acende incenso num templo antigo. Sobre a fé que não pede crença para existir.

Uma visão — conto.

Em Hong Kong, no ano de 2040, os prédios conversam entre si por luzes. A engenheira tinha ajudado a programar parte dessa conversa. Sabia de cor a lógica que fazia uma torre de oitenta andares avisar a outra que o vento ia mudar.

Mas não sabia por que o pai, todo sábado, subia a ladeira até o templo antigo para acender incenso.

— Pai, o senhor sabe que ninguém está ouvindo.

O pai, de oitenta e um anos, enfiou as varetas na areia da urna de bronze, com a calma de quem planta.

— Eu sei que você acha isso.

— Eu sei disso. Eu trabalho com sinais. Se houvesse alguém ouvindo, haveria resposta.

— E não há?

Ela não respondeu. A fumaça subia em linha reta e depois, a um palmo do teto, se desfazia em curvas que nenhum algoritmo dela saberia prever.

— Me diz uma coisa — disse o pai. — Quando você e a sua equipe ficaram três anos naquele projeto da ponte que todos diziam que ia cair, por que vocês continuaram?

— Porque os cálculos mostravam que não ia cair.

— Os cálculos mostravam no papel. Mas ninguém tinha feito uma ponte daquelas antes. Vocês acreditaram numa coisa que ainda não existia.

— Isso não é fé, pai. É engenharia.

O pai sorriu e se sentou no banco de pedra, que tinha o centro gasto de séculos de gente sentando ali.

— Quando eu tinha a sua idade, eu também não acreditava em nada. Saí da casa do seu avô brigado. Achava que esse templo era coisa de velho. Depois veio a crise de noventa e sete, eu perdi a loja, sua mãe ficou doente, e eu não tinha mais nenhum cálculo que desse certo.

— E veio aqui.

— Vim aqui porque era fresco e de graça. Sentei neste banco. E percebi que não estava pedindo nada a ninguém. Estava só quieto. E, quieto, consegui ouvir uma coisa que o barulho não deixava: que eu ainda queria viver.

A engenheira sentou ao lado dele.

Por um instante, ela teve uma espécie de visão. Viu todas as pessoas que tinham sentado naquele banco. Pescadores de antes da cidade existir. Mulheres esperando maridos que estavam no mar. Comerciantes falidos, estudantes antes da prova, velhos depois do enterro. Viu que todos tinham sentado ali sem garantia nenhuma de resposta. E viu que todos tinham levantado. Era isso: todos tinham levantado e ido viver mais um dia.

Pensou nos radiotelescópios que, do outro lado do mundo, escutam o céu numa faixa de frequência que todos os países combinaram deixar em silêncio, a do hidrogênio. Ninguém sabe se um dia alguém vai responder. E eles continuam escutando. Aquilo era ciência. E, de algum jeito, era também uma espécie de fé.

— Pai.

— Hum.

— Eu não acredito no que o senhor acredita.

— Eu sei.

— Mas acho que acredito em alguma coisa.

O pai não perguntou em quê. Estendeu a ela uma vareta de incenso. Ela segurou, sem acender, e ficou com ela na mão por muito tempo.

Na saída, ele disse a frase que ela levaria para casa:

— Fé não é ter certeza de quem ouve. É continuar falando.

Bairo, que encontrou a fé numa congregação cristã, faz questão de dizer que quem confia no seu Deus da criação está certo, independentemente da crença, e que a fé que o salvou não exclui ninguém. Leia: A sétima tentativa.

O caminho

Fé pode ter nome de Deus ou nenhum nome; o que ela tem em comum é a coragem de seguir sem garantia. Respeite a fé de quem é diferente de você, porque ela costuma nascer de uma dor que você não viu. E, se não crê, encontre o seu banco de pedra: um lugar quieto para ouvir o que o barulho esconde.

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