Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Dor e fé · Fé

O que a ciência diz sobre fé e saúde

Koenig, VanderWeele e o Global Flourishing Study: frequentar uma comunidade de fé anda junto com mais bem-estar. O que os estudos mostram e o que não.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Durante boa parte do século 20, a medicina tratou a religião como assunto de foro íntimo, fora do prontuário. Freud a via como ilusão; muitos psiquiatras, como sintoma. Foi preciso que alguns pesquisadores teimosos começassem a contar, com método, para que a pergunta mudasse de lugar: o que acontece com a saúde de quem vive a fé?

A resposta não é a que os céticos esperavam, nem a que os devotos gostariam. É mais interessante do que as duas.

O homem que contou milhares de estudos

Harold Koenig, psiquiatra da Universidade Duke, passou décadas reunindo pesquisas sobre religião, espiritualidade e saúde. Em 2012, publicou na revista ISRN Psychiatry uma revisão que se tornou referência, cobrindo estudos publicados de 1872 a 2010.

Os números dele são fortes. Dos 444 estudos sobre depressão que analisou, 61% encontraram menos depressão entre os mais religiosos; entre os de melhor qualidade, 67%. Dos 141 estudos sobre suicídio, 75% associaram o envolvimento religioso a menos tentativas e a atitudes mais protetoras diante da própria vida.

Mas o mesmo Koenig dedica páginas ao outro lado. A religião pode aumentar a ansiedade com ameaças de castigo, alimentar culpa excessiva, servir de justificativa para preconceito e, em algumas pessoas com transtornos mentais graves, misturar-se aos sintomas. Ele escreve isso porque é verdade, e porque é isso que separa ciência de propaganda.

As enfermeiras de Harvard

Em 2016, Tyler VanderWeele, epidemiologista de Harvard, publicou com colegas no JAMA Internal Medicine uma análise de 74.534 enfermeiras americanas acompanhadas por cerca de 16 anos. As que iam a cultos ou missas mais de uma vez por semana tiveram mortalidade 33% menor no período do que as que nunca iam, já descontados fumo, doenças, renda e outros fatores.

Os autores procuraram explicações e encontraram algumas pistas: apoio social, menos sintomas depressivos, menos tabagismo, mais otimismo. Ir junto, com outros, parecia contar. É uma associação observada com muito cuidado estatístico, mas continua sendo uma associação, num grupo específico de mulheres, de um país, de uma época.

Duzentas mil pessoas em 22 países

O passo seguinte foi o Global Flourishing Study, uma parceria do programa Human Flourishing de Harvard, dirigido por VanderWeele, com a Universidade Baylor, o Gallup e o Center for Open Science. Cerca de 200 mil pessoas, em 22 países, inclusive o Brasil, respondem às mesmas perguntas sobre saúde, felicidade, sentido, caráter, relações e segurança financeira, e serão acompanhadas por anos.

Os primeiros resultados saíram em abril de 2025 na Nature Mental Health. A frequência a serviços religiosos esteve entre os fatores mais consistentemente ligados ao florescimento humano: quem frequentava toda semana relatava mais bem-estar do que quem nunca ia, e a relação apareceu na grande maioria dos países. O próprio VanderWeele a descreveu como um dos fatores mais consistentes entre países e entre dimensões da vida.

O que os estudos não mostram

Aqui mora a parte que quase nunca aparece nas manchetes.

Não mostram causa com certeza. Pessoas mais saudáveis conseguem ir mais ao culto; pessoas mais sociáveis talvez procurem mais a igreja. Os bons estudos tentam controlar isso, mas a primeira onda do Global Flourishing Study, por exemplo, ainda é uma fotografia, não um filme.

Não mostram que a oração trata doença. O maior teste disso, o estudo STEP, publicado em 2006 no American Heart Journal, sorteou 1.802 pacientes de cirurgia cardíaca para receber ou não orações de grupos religiosos. Não houve diferença nas complicações. E o grupo que tinha certeza de estar recebendo orações teve um pouco mais de complicações, 59% contra 52%, talvez pela pressão de "ter de" melhorar.

Não mostram que a fé de uns vale mais que a falta de fé de outros. O que parece pesar é o pertencimento, o sentido e o apoio. E isso se constrói por muitos caminhos.

Fontes: Koenig, ISRN Psychiatry, 2012 · Li, Stampfer, Williams e VanderWeele, JAMA Internal Medicine, 2016 · VanderWeele e colegas, Global Flourishing Study, Nature Mental Health, 2025 · Programa Human Flourishing, Harvard · Benson e colegas, estudo STEP, 2006

Na história de Bairo

Quando Bairo conta como reencontrou a fé, o detalhe que mais se repete não é uma visão nem uma oração solitária. É gente. Testemunhos ouvidos numa congregação cristã, histórias de pessoas comuns que tinham atravessado o impossível. Foi ouvindo os outros que ele passou a acreditar no Deus do impossível.

Sem saber, ele estava descrevendo o que a epidemiologia mede: a fé vivida em comunidade. E é por isso que, na leitura dele, fé e trabalho nunca se separaram. A pessoa que se sente parte de algo maior tem mais força para recomeçar. Para Bairo, a fé é confiar em algo que não se vê. A ciência, por sua vez, vê alguns dos rastros que essa confiança deixa.

Para você

Se você crê, a pesquisa sugere que vale cultivar não só a oração, mas a presença: ir, estar junto, servir, ouvir a história de alguém. E vale ficar atento quando a sua fé começa a falar só em culpa e castigo.

Se você não crê, nada aqui é um convite para fingir. O que os estudos apontam, o apoio, o sentido, a regularidade de um encontro, pode ser buscado num coral, num grupo de caminhada, num trabalho voluntário.

E ninguém deve trocar tratamento por oração. As duas coisas cabem juntas, e muitos médicos hoje perguntam sobre a fé do paciente justamente para cuidar melhor.

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