Falência · ficção
O dia em que fechei as portas da empresa
Um conto sobre o empreendedor que baixa a porta da loja pela última vez e descobre o que a chave ainda abre. Para quem acabou de perder o negócio.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Uma visão — conto.
A chave era pesada demais para o tamanho que tinha.
O homem ficou parado na calçada com ela na mão, às sete e dez de uma terça-feira, enquanto a porta de aço descia pela última vez. O barulho foi o mesmo de todas as noites durante onze anos. Só que desta vez ninguém ia subir aquela porta de manhã.
Ele pensou nos nomes. Não nos dos clientes, nem nos dos fornecedores. Nos nomes das pessoas que tinham trabalhado ali. Cada uma tinha um jeito de dizer bom-dia. Um entrava cantando. Outra chegava sempre com pão. O mais novo pedia desculpa por tudo, até por estar vivo, e ele tinha passado dois anos ensinando aquele menino a não pedir desculpa por existir.
Agora era ele que queria pedir desculpa a todos.
A chave começou a pesar como pesam as coisas que não servem mais. Uma chave sem porta é um pedaço de metal com memória.
Então, sem ter pedido, ele viu.
Ele viu a mesma calçada muitos anos antes, quando ali ainda era terreno baldio. Viu o pai dele, jovem, passando de bicicleta, sem saber que um dia o filho teria uma loja naquele lugar. Viu a loja abrindo, a fita vermelha, a mãe com a bolsa apertada contra o peito, orgulhosa como quem segura um recém-nascido. Viu a loja fechando, agora. E viu, mais adiante, um lugar que não reconheceu: uma mesa comprida, gente que ele ainda não conhecia, e ele no meio, mais velho, explicando a alguém mais novo como se faz para não pedir desculpa por existir.
O tempo, naquela calçada, tinha dobrado como um papel. Passado e futuro se tocavam pela ponta.
Ele entendeu uma coisa que não sabia dizer em palavras. A loja não tinha sido o fim de nada. Tinha sido uma escola. Onze anos de escola paga com o próprio dinheiro, e a escola fechava porque ele tinha terminado o curso.
Não era consolo. Doía igual. As contas continuavam lá, numa pasta azul em cima da mesa da cozinha. Os telefonemas difíceis continuavam por fazer. Mas a dor tinha mudado de lugar. Antes, estava no peito, apertando. Agora, estava nas mãos, pedindo trabalho.
Ele foi para casa a pé. No caminho, passou por uma padaria aberta e comprou pão, como fazia aquela moça todos os dias. Pôs o pão na mesa e abriu a pasta azul. Pegou uma folha em branco e escreveu, numa coluna, tudo o que devia. Na outra, tudo o que sabia fazer.
A segunda coluna ficou maior.
Ficou olhando para as duas por muito tempo. Lá fora o céu estava limpo, e em algum lugar dele, muito longe, os átomos de hidrogênio continuavam fazendo o que fazem desde o começo de tudo: mudando de estado e soltando um sinal fraquíssimo, sempre na mesma frequência. Ninguém ouve. Mas o sinal está lá. Nunca parou.
Ele não sabia nada disso. Sabia só que tinha uma chave no bolso e que ia guardá-la numa gaveta. Não para lembrar da loja. Para lembrar que um dia tinha tido coragem de abrir uma porta.
E que, se tinha tido uma vez, podia ter de novo.
Bairo conta que viveu algo assim: um negócio que não se sustentou, cinquenta pessoas dependendo dele e a decisão de não gastar a energia procurando culpados. Leia: Cinquenta vidas.
O caminho
Fechar uma empresa é um fato, não uma sentença sobre quem você é. Escreva numa folha o que você deve e, ao lado, o que você sabe fazer, e olhe para as duas colunas com a mesma calma. Se a dor virar desespero, o CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora.