Trabalho · ficção
Fui demitido, e agora?
Conto sobre uma analista financeira demitida em Hong Kong na crise de 2008, que atravessa a baía de balsa com uma caixa de papelão no colo.
Uma visão — conto.
A caixa de papelão tinha o tamanho exato de onze anos de trabalho.
Dentro dela: uma caneca com o logotipo do banco, uma planta pequena meio murcha, uma foto da mãe, dois livros de finanças que ela nunca terminou de ler, um par de sapatos baixos para as noites em que ficava até tarde, e um cartão de aniversário assinado por uma equipe que, naquela manhã de setembro de 2008, tinha sido inteira dispensada em quinze minutos.
A analista tinha trinta e quatro anos. Tinha ido para Hong Kong aos vinte e três, vinda de Portugal, com um diploma e uma ambição. Subiu rápido. Trabalhava dezesseis horas por dia, ganhava bem, tinha um apartamento pequeno com vista para outros prédios. Achava que estava construindo uma vida.
Às dez da manhã, um homem do departamento de pessoal, que ela nunca tinha visto, chamou-a numa sala de vidro, leu um texto num papel e pediu o crachá. Às dez e meia, ela estava na calçada com a caixa.
Não sabia para onde ir. Então foi para o lugar da cidade que ainda lhe dava alguma paz: o cais das balsas.
A balsa verde e branca cruzava a baía como fazia havia mais de cem anos. Ela sentou-se no banco de madeira, com a caixa no colo, e a balsa partiu.
A água estava cinzenta. Os prédios de vidro da ilha refletiam as nuvens. Do outro lado, a península, mais baixa, mais antiga. Entre um lado e outro, sete minutos.
Ela olhou para a caixa. E chorou como não chorava desde a infância.
Foi então que ela viu.
Viu a avó, numa aldeia de pescadores do norte de Portugal, esperando o barco do marido voltar numa manhã de tempestade. O barco não voltou. A avó tinha trinta e quatro anos, a mesma idade dela. Viu a avó, no dia seguinte, a remendar redes de outros pescadores para ganhar o pão. Viu-a a abrir, anos depois, uma pequena venda de peixe seco. Viu-a velha, sentada à porta, rindo com as vizinhas, com as mãos cheias de calos e os olhos cheios de mar.
A avó nunca tinha tido um crachá. Nunca tinha sido demitida. Mas tinha perdido o chão inteiro numa manhã, e tinha atravessado.
A visão andou. Ela viu-se a si mesma, mais velha, num lugar que não reconhecia. Não estava num prédio de vidro. Estava numa sala simples, com uma janela aberta para uma rua, ensinando alguma coisa a pessoas que a ouviam. Não sabia o quê. Mas tinha a cara da avó: calos e mar.
A balsa bateu no cais do outro lado. As pessoas levantaram-se. Ela ficou sentada.
Um marinheiro velho, de uniforme branco, aproximou-se e disse em inglês, com sotaque cantonês, que era preciso sair.
— Desculpe. Eu só... não sei para onde vou.
O marinheiro olhou para a caixa. Depois para ela. Depois para a baía.
— A balsa volta em dez minutos — disse. — Ninguém se perde aqui. É sempre ida e volta.
Ela riu, no meio das lágrimas. Ficou na balsa. Fez a travessia de volta. E depois outra vez. Fez seis travessias naquela tarde, até a caixa parecer mais leve.
No dia seguinte, começou a ligar para as pessoas. Não para pedir emprego. Para perguntar como estavam. Metade da cidade tinha sido demitida. Descobriu que não estava sozinha. Descobriu, também, que muitos deles precisavam de alguém que soubesse ler números e explicar com calma.
Não foi rápido. Mas foi.
Bairo conta que, num dos seus negócios, os sócios o tiraram da própria ideia, e que foi aí que ele achou a dor e fez dela a sua base. Leia: O não é a base do sim.
O caminho
Ser demitido diz algo sobre a empresa e o momento, não sobre o seu valor. Antes de mandar currículos, ligue para as pessoas: a rede de quem trabalhou com você é o seu maior ativo. E dê a si mesmo algumas travessias para chorar; a caixa fica mais leve.