Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Sonho · ficção

A sétima vez: quantas vezes tentar antes de desistir

Conto em sete movimentos sobre um homem que tentou seis vezes, perdeu seis vezes e, na sétima, entendeu o que as outras tinham deixado nas mãos dele.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Uma visão — conto.

Um. Ele tinha dezenove anos e uma barraca de suco na saída da escola. Choveu o mês inteiro. Ninguém toma suco na chuva. Ele fechou a barraca e guardou o liquidificador debaixo da cama. Aprendeu que o céu também é sócio.

Dois. Aos vinte e quatro, abriu uma pequena gráfica com um amigo. O amigo sumiu numa sexta-feira com o dinheiro do caixa e a máquina nova. Ele ficou com o aluguel e uma pilha de cartões de visita com o nome de uma empresa que não existia mais. Aprendeu que confiança se dá, mas também se verifica.

Três. Aos vinte e oito, inventou um jeito de entregar marmita nos escritórios, organizado por mensagem no celular, quando ninguém ainda fazia isso. Disseram que era bobagem, que as pessoas não iam pedir comida por telefone. Ele acreditou neles. Desistiu. Cinco anos depois, o país inteiro pedia comida assim. Aprendeu que chegar cedo demais também é chegar sozinho.

Quatro. Aos trinta e dois, entrou de sócio numa loja de móveis. Ia bem. Depois a economia caiu, e com ela a loja, e com ela o casamento. Dormiu três meses no sofá da irmã. Aprendeu o que pesa mais: a dívida ou o olhar da filha quando ele chegava de visita aos domingos.

Cinco. Aos trinta e sete, tentou de novo, pequeno: conserto de celular numa portinha de galeria. Ia indo. Uma enchente levou tudo numa noite. Ele ficou parado na porta da galeria vendo a água marrom correr pelos corredores, levando telas, carregadores, a cadeira de plástico. Não chorou. Já não tinha lágrima disponível. Aprendeu que nada é dele de verdade, só o que ele sabe.

Seis. Aos quarenta e um, juntou o que sabia, a gráfica, a marmita, o móvel, o celular, e montou uma oficina de reformas para gente idosa: barras no banheiro, rampas, tomadas mais altas. Ia bem. Até que um cliente grande não pagou e outro processou. Fechou. Naquela noite, sentado no carro parado numa rua escura, ele pensou seriamente em parar de tentar. Pensou em coisas piores também. Ligou para um número de ajuda que tinha visto num cartaz. Uma voz calma ouviu por quarenta minutos. Não resolveu nada. Mas ele dormiu.

E então, numa madrugada de insônia, aconteceu a visão.

Ele viu os seis homens que tinha sido. Estavam sentados em volta de uma mesa, numa sala branca sem janela. O de dezenove com a camiseta molhada de chuva. O de vinte e quatro com os cartões de visita inúteis. O de vinte e oito com o celular na mão. O de trinta e dois com o olhar perdido. O de trinta e sete com as calças sujas de lama. O de quarenta e um com os olhos vermelhos. Todos olhavam para ele, o sétimo, que tinha acabado de entrar.

Nenhum disse "desista". Nenhum disse "continue". Cada um apenas pôs alguma coisa em cima da mesa. Um pôs o céu. Outro pôs a desconfiança. Outro pôs o futuro. Outro pôs a filha. Outro pôs as mãos vazias. E o último pôs a voz calma do telefone.

Ele olhou para a mesa cheia e entendeu. Os seis não tinham fracassado. Tinham trabalhado para ele.

Sete. Aos quarenta e quatro, ele abriu uma escola de ofícios para homens que, como ele, tinham perdido tudo depois dos quarenta. Ensinava a consertar, reformar, recomeçar. Não é uma história de fortuna. É uma história de sala cheia. A filha, hoje com vinte anos, cuida das inscrições.

Quando alguém pergunta quantas vezes ele tentou, ele diz que não sabe ao certo. Sabe só que a sétima tinha todas as outras dentro dela.

Bairo conta que ninguém sabe quantas vezes ele tentou, pensou e quase desistiu, e que foi na sétima tentativa que deu certo. Leia: A sétima tentativa.

O caminho

Cada tentativa que não deu certo deixa alguma coisa na sua mão; antes da próxima, ponha tudo em cima da mesa e olhe. Tentar de novo não é repetir, é somar. E, se a noite ficar escura demais, ligue: o CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora.

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