Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Perdão · ficção

Como perdoar um sócio que te traiu

Conto em diálogo, em 2050, entre dois velhos que foram sócios, se separaram em silêncio e se reencontram num banco de jardim trinta anos depois.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Uma visão — conto.

O banco do jardim tinha lugar para três. Eles se sentaram nas pontas, com um espaço vazio no meio, do tamanho de trinta anos.

Era 2050, numa praça arborizada de uma cidade do sul do Brasil, onde os velhos jogavam dominó à sombra e as crianças passavam correndo com patinetes silenciosos. Um deles tinha setenta e oito anos. O outro, oitenta e um. Tinham sido sócios numa fábrica de móveis nos anos 2010. O mais velho tinha tirado o mais novo do negócio, numa reunião de quinze minutos, com um advogado e um papel. A fábrica era ideia do mais novo.

Não se falavam desde então.

Foi o mais novo que mandou a mensagem. Uma linha só: "Estou doente. Queria ver você".

— Você está com boa cara — disse o mais velho, sem olhar.

— É o remédio. Incha.

Silêncio. Um pombo pousou no espaço vazio entre os dois, olhou para um, olhou para o outro e foi embora.

— Por que você quis me ver?

O mais novo ficou um tempo calado.

— Porque passei trinta anos ensaiando o que ia te dizer. E percebi, mês passado, que não tenho mais trinta anos para ensaiar.

— Então diga.

— Você me roubou.

O mais velho não respondeu de imediato. Olhou para as mãos, manchadas, com as veias grossas.

— Roubei.

O mais novo não esperava isso. Tinha ensaiado uma briga. Tinha frases prontas para cada desculpa que o outro desse. Não tinha nenhuma frase para aquela palavra.

— Por quê?

— Porque eu tinha medo. A fábrica crescia, e a ideia era sua, o desenho era seu, os clientes gostavam de você. Eu achei que, se ficasse só como sócio, um dia você me tiraria. Então tirei você antes.

— Eu nunca ia te tirar.

— Eu sei. Agora eu sei. Na época, não sabia.

O mais novo fechou os olhos. E, ali, no banco, veio uma visão.

Viu os dois com vinte e cinco anos, numa garagem cheia de serragem, desenhando a mesa que ia inaugurar a fábrica num papel de pão. Viu os dois rindo, sujos de verniz. Viu a reunião de quinze minutos, o papel, o advogado, o rosto do sócio que ele não reconheceu. Viu os trinta anos depois: ele recomeçando, abrindo outra coisa, perdendo, abrindo outra. Viu que cada vez que tinha ficado de pé, tinha sido em parte por raiva. A raiva tinha sido o combustível.

E viu o que a raiva tinha custado. As noites sem dormir. O jeito desconfiado com cada novo sócio. A filha dizendo, aos quinze anos: "Pai, você não confia em ninguém".

Depois viu outra coisa, mais estranha. Viu o sócio, nesses trinta anos. Sozinho, na fábrica que tinha ficado só dele, e que fechou dez anos depois. Viu-o de noite, na mesma garagem, olhando o papel de pão emoldurado na parede. Viu que ele também não tinha dormido bem.

Abriu os olhos.

— Eu passei trinta anos com raiva de você — disse.

— Eu passei trinta anos com vergonha.

— Qual dos dois pesa mais?

O mais velho riu, um riso curto, rouco.

— Não sei. Os dois pesam o suficiente.

Ficaram calados de novo. Mas o silêncio era outro.

Perdoar, descobriu o mais novo, não era dizer que estava tudo bem. Não estava. Nunca ia estar. Era decidir não carregar mais. Pôr a mala no chão. Ele tinha carregado aquilo tanto tempo que achou que fazia parte do corpo.

— Você ainda tem aquele papel de pão? — perguntou.

— Tenho. Está na parede da minha sala.

— Me mostra um dia.

O mais velho olhou para ele como quem não sabe se ouviu direito. Depois, devagar, se arrastou no banco e ocupou o espaço do meio.

Bairo conta que os sócios o tiraram de uma ideia que era dele, e que dessa dor ele tirou a lição mais cara: escolher com quem se constrói. Leia: O não é a base do sim.

O caminho

Perdoar não é dizer que o que aconteceu estava certo; é decidir não carregar mais o peso. A raiva pode ter sido o combustível que te pôs de pé, mas não precisa ser o motor para sempre. E da traição fica uma lição útil: escolher com mais cuidado com quem se constrói.

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