Falência
Como lidar com a vergonha de ter falido?
Separe o que você fez do que você é, conte a verdade a quem importa e volte a agir. A vergonha encolhe quando a história é contada com dignidade.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
A vergonha de quebrar costuma pesar mais que a própria dívida. Você evita o telefone, o grupo da família, o encontro na padaria. Ela convence você de que todo mundo está julgando, e é por isso que precisa ser enfrentada de frente.
O que fazer agora
- Separe o fato da identidade. "O negócio quebrou" é um fato. "Eu sou um fracasso" é uma interpretação. Escreva as duas frases e olhe a diferença. A primeira tem solução; a segunda só paralisa.
- Conte a verdade para poucas pessoas certas. Escolha uma ou duas pessoas de confiança e diga o que aconteceu, sem enfeitar. Segredos crescem no escuro. Ditos em voz alta, perdem metade do peso.
- Pare de se comparar com a vitrine dos outros. Rede social mostra a inauguração, nunca o fechamento. Quase todo empreendedor que você admira tem uma queda que não postou.
- Responda com fatos, não com desculpas. Quando perguntarem, tenha uma frase curta e honesta: "O negócio não se sustentou. Estou organizando as contas e já estou trabalhando no próximo passo." Não precisa de mais que isso.
- Volte a fazer alguma coisa, mesmo pequena. Um trabalho temporário, um serviço, um curso. A vergonha se alimenta de imobilidade; ação, mesmo modesta, devolve dignidade.
- Observe os sinais de alerta. Se a vergonha virou isolamento total, insônia por semanas ou pensamentos de que seria melhor não existir, procure ajuda já: CVV no 188, gratuito e 24 horas, ou a unidade básica de saúde e o CAPS da sua cidade. Em emergência, SAMU no 192.
Quando aconteceu com Bairo
Bairo Leandro Gonzalez Martinez conta que, entre os amigos de longa data, é o Leandro, o amigo que muitos viram sofrer: o dos anos difíceis da chegada ao Brasil, o dos sócios que o tiraram da própria ideia, o da quebra com muita gente dependendo dele, o quebrado que ainda tinha uma chama.
Há uma reação natural para esse momento, e todo mundo a conhece: reclamar. Do sócio, do sistema, do país, da sorte. Bairo conta que escolheu não reclamar. Em vez de se esconder, decidiu fazer justamente o que não sabia fazer.
Hoje, ele não apaga as quedas da própria história. Elas estão nos capítulos que ele mesmo escolheu publicar, com o nome dele embaixo.
O caminho
A vergonha diz "esconda". A experiência de quem atravessou diz "conte, com dignidade". Uma queda contada com verdade vira aprendizado para você e para quem está passando pela mesma coisa. Quem procurou a própria melhor versão no fundo do poço, como mostra a história de Bairo, sai de lá sabendo procurar a melhor versão dos outros.
Repare também em como você fala de si mesmo quando ninguém está ouvindo. Se você não diria a um amigo quebrado as coisas que diz a si próprio, pare. Trate a si mesmo com a mesma firmeza e a mesma gentileza que teria com alguém que ama. Vergonha não paga dívida nem abre porta; dignidade, sim. E ela começa no jeito como você conta a sua própria história, primeiro para você.