No mundo · Agro · 28 de outubro de 2025
Crédito ao pequeno produtor: o que mostram as reportagens
Bloomberg, Reuters e Forbes Agro mostram o crédito rural mais caro e mais restrito entre 2025 e 2026. O que isso diz sobre o lugar do pequeno produtor.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Entre 2025 e 2026, a imprensa econômica registrou o mesmo movimento por ângulos diferentes: o crédito rural no Brasil ficou mais caro, mais seletivo e mais difícil para quem tem pouco patrimônio. Em 28 de outubro de 2025, a Bloomberg noticiou que o Banco do Brasil, maior financiador do agro, ameaçava parar de emprestar a produtores que pedissem recuperação judicial. A Forbes Agro e a Reuters, ao cobrir o Plano Safra 2026/27, mostraram que o dinheiro anunciado cresce, mas o acesso não acompanha. No meio desse quadro está o pequeno e o médio produtor.
O que aconteceu
A reportagem da Bloomberg ouviu o diretor de riscos do Banco do Brasil, Felipe Prince. Segundo o texto, cerca de R$ 5,4 bilhões em empréstimos do banco não estavam sendo pagos por causa de pedidos de recuperação judicial de 808 produtores, numa base de cerca de 1 milhão de clientes rurais e uma carteira de agronegócio de R$ 404,9 bilhões em junho. Para quem pede recuperação, disse o executivo, "não terão crédito hoje, amanhã ou nunca mais", na tradução da frase em inglês. Meses antes, em maio de 2025, a mesma Bloomberg já descrevia a onda de calotes de produtores como um acerto de contas para o banco estatal.
Os números da Serasa Experian dão a dimensão. Em 2025, o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56,4% sobre 2024 e o maior volume da série iniciada em 2021. Produtores rurais pessoa física fizeram 853 pedidos, e pessoa jurídica, 753. Mato Grosso liderou, com 332.
Em 30 de junho de 2026, ao cobrir o Plano Safra 2026/27, a Reuters destacou o volume de R$ 525,1 bilhões para médios e grandes produtores e a queda na taxa de custeio. Na mesma data, a Forbes Agro, em texto de Fábio Moitinho e Vera Ondei, ponderou que cerca de 37% do total anunciado vem de CPR e LCA, a juros de mercado, e que apenas 4% dos produtores de soja de Mato Grosso acessaram recursos de custeio na safra anterior.
Por que importa
As reportagens descrevem um ciclo que se retroalimenta. Juro alto, clima ruim e insumo caro levam à inadimplência; a inadimplência leva os bancos a pedir mais garantia; a exigência de garantia afasta quem tem menos patrimônio; e quem fica sem crédito vende a safra na hora errada ou recorre a fontes mais caras. Os grandes têm saídas, como o mercado de capitais e o crédito externo. O pequeno raramente tem.
Também há um ponto de linguagem. Recuperação judicial é um instrumento legal, e os números absolutos crescem, mas a própria Serasa Experian já observou, em 2025, que os pedidos afetam uma fatia pequena do universo do crédito rural. O retrato correto não é de um campo quebrado, e sim de um sistema que pune quem não consegue provar a própria capacidade de pagamento.
Na visão de Bairo
Para Bairo Leandro Gonzalez Martinez, essas reportagens descrevem com números o que ele viu de perto nas centrais de abastecimento: gente que alimenta cidades inteiras e continua invisível para o sistema financeiro. Na leitura dele, o produtor que entrega toda semana movimenta mais do que muita pequena empresa e, ainda assim, não tem um histórico que um analista de crédito reconheça.
Bairo conta que, quando foi aos bancos com a ideia de uma plataforma para esse público, ouviu que não, e decidiu construir mesmo assim. Ele defende crédito pela história real, e não só pela escritura. Para ele, isso começa com a conexão direta entre produtor, comerciante e comprador, com cotação baseada em dados da CEASA e da Conab, e com cada venda registrada de forma que qualquer instituição possa verificar.
Onde isso encontra o ecossistema
O CEASA Bank é uma plataforma financeira do agronegócio, fundada por Bairo, que opera sobre a infraestrutura de uma instituição autorizada. Não é um banco autorizado e não substitui o crédito rural oficial. A proposta é atacar a etapa anterior ao crédito: dar ao produtor preço visível, cobrança rápida e um histórico próprio, construído a partir da operação real.
No desenho do ecossistema, cada venda vira registro na BTZ Chain, a rede de registro com prova de veracidade, e o crédito ligado à safra aparece como etapa seguinte, com instituições autorizadas. São propostas em construção, sem promessa de taxa ou aprovação.
Fontes
- Bloomberg, "Top Bank to Halt Credit for Brazilian Farmers Seeking Bankruptcy", 28/10/2025: bloomberg.com
- Bloomberg, "Farmer Defaults Force Reckoning at Banco do Brasil", 27/05/2025: bloomberg.com
- Reuters (via TradingView), "Brazil's 2026/27 Safra Plan expands farm credit to $101.5 billion for medium, large producers", 30/06/2026: tradingview.com
- Forbes Agro, "Depois do anúncio: como o Plano Safra 2026/27 deve mexer com o mercado", 30/06/2026: forbes.com.br
- Serasa Experian, "Recuperação judicial: agro fecha 2025 com quase 2 mil solicitações", 09/03/2026: serasaexperian.com.br
- Serasa Experian, "Recuperação judicial cresce no agro em primeiro trimestre de 2025, o que ainda afeta fatia pequena dentro do universo de crédito rural", 2025: serasaexperian.com.br
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