Dor e fé · Silêncio
Oração, silêncio e meditação: as diferenças
Orar é falar e escutar alguém; meditar é treinar a atenção; o silêncio é o chão das duas. O que cada uma é, o que a pesquisa encontrou e como começar.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Uma senhora de terço na mão, num banco de igreja vazio. Um executivo de olhos fechados no aplicativo do celular, antes da reunião. Um pescador olhando a água sem dizer nada por uma hora.
Vistos de fora, os três parecem fazer a mesma coisa: estão quietos. Por dentro, podem estar fazendo coisas bem diferentes. Entender a diferença ajuda a escolher o que faz sentido para cada um, sem que ninguém precise abrir mão da própria crença, ou da falta dela.
Oração: uma conversa
A oração, nas tradições religiosas, é antes de tudo uma relação. Quem ora fala com alguém, ou escuta alguém. Pode ser pedido, agradecimento, desabafo, louvor, silêncio diante de Deus. Pode ser uma fórmula antiga repetida, como o pai-nosso ou o terço, ou palavras próprias, ditas no carro.
O que define a oração não é a técnica. É o destinatário. Para quem crê, há alguém do outro lado.
Algumas formas de oração se parecem muito com meditação. Na tradição cristã há a oração centrante, em que se repete por dentro uma palavra sagrada para voltar a Deus sempre que a mente se distrai, e a lectio divina, a leitura lenta e repetida de um trecho da Bíblia. Outras religiões têm práticas parecidas: a repetição dos nomes de Deus, o mantra, a recitação ritmada.
Meditação: um treino de atenção
A meditação, no sentido em que a ciência a estuda, é um treino da atenção e da consciência. Pode vir de uma tradição religiosa, como o budismo, ou ser completamente laica, como os programas de atenção plena criados em hospitais americanos nos anos 1970.
O que define a meditação é o exercício: escolher um ponto de atenção, como a respiração, um som ou uma palavra, perceber quando a mente foge e voltar. Não exige crença nenhuma. Pode ser feita por um ateu, um monge ou um pastor.
Silêncio: o chão das duas
O silêncio não é uma prática. É uma condição. É o espaço sem barulho, por fora e, se possível, por dentro, onde tanto a oração quanto a meditação ficam mais fáceis. Muitas tradições espirituais o tratam como forma de oração em si. Mas ele também vale para quem não reza: dez minutos sem tela, sem fone e sem conversa já mudam o dia de muita gente.
O que a pesquisa encontrou
A fé parece somar. Em 2005, Amy Wachholtz e Kenneth Pargament compararam três grupos de universitários que praticaram por duas semanas: um repetia uma frase espiritual, outro uma frase neutra, outro fazia relaxamento. O grupo espiritual teve mais queda de ansiedade, melhor humor e, no teste de dor com água gelada, aguentou quase o dobro do tempo. Para quem crê, dar sentido espiritual à prática pode fazer diferença. O estudo é pequeno e precisa ser repetido.
O cérebro de quem ora em silêncio se parece com o de quem medita. Em 2003, o pesquisador Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, mediu o fluxo de sangue no cérebro de freiras franciscanas durante a oração meditativa, repetindo uma frase. Encontrou mudanças em áreas da atenção e da linguagem, em parte parecidas com as que ele já tinha visto em meditadores budistas. Eram só três freiras: é uma pista, não uma conclusão.
Rezar pelos outros não mostrou efeito sobre doenças. O maior estudo sobre oração à distância, o STEP, de 2006, não encontrou diferença na recuperação de pacientes de cirurgia cardíaca que receberam ou não orações de grupos religiosos. A oração pode fazer muito por quem ora, pela paz, pelo sentido, pela comunidade. Não deve ser tratada como remédio.
Fontes: Wachholtz e Pargament, Journal of Behavioral Medicine, 2005 · Newberg e colegas, Perceptual and Motor Skills, 2003 · Benson e colegas, estudo STEP, 2006 · Goyal e colegas, programas de meditação, 2014
Na história de Bairo
Para Bairo Leandro Gonzalez Martinez, as três coisas se encontram. Ele ora: pede sabedoria, entendimento e coragem, como aprendeu na fé. Ele busca o silêncio, que chama de frequência do silêncio, inspirado na faixa de 1420 MHz, onde o mundo combinou não transmitir para poder escutar o hidrogênio do universo. E descreve a fé como escuta: um cego seguindo uma voz em que confia.
Quando fala desses momentos, ele usa a linguagem da física quântica, de que tudo está conectado e de que é possível lembrar uma versão mais próspera de si. É a imagem dele, a forma de dar palavra a uma experiência de fé. Não é uma afirmação científica, e não precisa ser para fazer sentido na vida dele.
Para você
Um exercício simples, que serve a quem crê e a quem não crê. Dez minutos, num lugar quieto.
- Silêncio. Desligue as notificações. Sente-se. Respire devagar por um minuto, sem fazer mais nada.
- Atenção. Escolha uma âncora: a respiração, uma palavra, um versículo curto. Quando a mente fugir, volte a ela, sem se cobrar.
- Imagem. No fim, pergunte-se com calma: como eu gostaria de estar daqui a cinco anos? Não o que eu teria, mas quem eu seria. Deixe a imagem vir, sem forçar.
- Para quem ora. Entregue essa imagem em oração, com as suas palavras.
- Um passo. Antes de levantar, escolha uma ação pequena para hoje que aproxime você daquela imagem.
Não é técnica para mudar a realidade com a mente. É um modo de ouvir a si mesmo, e de sair do silêncio com uma direção. Se o silêncio trouxer dor demais, não insista sozinho: converse com alguém de confiança ou um profissional.