Capítulo 12
A planta e a reconexão
O que mudou dentro de Bairo depois da busca interior: o silêncio, o reencontro com quem ele era antes das quedas e a planta como ponte, não destino.
Existe um tipo de barulho que não vem da rua.
Ele mora dentro. É feito de contas atrasadas, de nomes de sócios que foram embora, de frases que alguém disse anos atrás e que continuam tocando como um rádio mal sintonizado. Quem já perdeu tudo conhece esse barulho. Ele não desliga à noite. Não desliga no banho. Acompanha a pessoa até a porta de cada nova tentativa e fica ali, encostado no batente, repetindo que não vai dar.
Bairo viveu anos com esse barulho ligado.
Por fora, ele seguia. Recomeçava, montava, reinventava. Por dentro, o volume só subia. Cada queda acrescentava uma estação nova ao rádio, e nenhuma delas tocava música.
O homem antes das quedas
Antes dos documentos que ele não tinha nas mãos, antes do salão, dos sócios, da quebra, existia outro homem. Um menino, na verdade. O que jurava morar no Brasil sem ter caminho para isso. O que aprendeu a ginga antes da língua. O que anunciava em voz alta coisas que ainda não existiam e não pedia desculpas por isso.
Esse menino não tinha morrido. Tinha ficado soterrado.
Cada queda deixou uma camada por cima dele. Uma de cautela. Outra de vergonha. Outra de cansaço. Mais uma de desconfiança, a que os sócios deixaram. Nenhuma dessas camadas era mentira. Todas eram defesa. Quem apanha aprende a se proteger, e proteger-se é sensato.
O problema é que a defesa foi ficando tão grossa que Bairo já não ouvia a voz de quem ele tinha sido.
É isso que ele quer dizer quando fala do que estava partido dentro dele. Não era o corpo. Era a ligação. O fio entre o homem que ele era e o homem que ele tinha virado se rompeu em algum ponto da estrada, e ele não sabia dizer onde. Só sabia que, quando tentava sonhar, a imagem vinha sem cor. Ele continuava capaz de trabalhar. Tinha perdido a capacidade de desejar.
A ponte
O capítulo O Deus do impossível contou que ele, no fundo do poço, saiu em busca de silêncio, e não de tratamento, e que nessa busca pessoal o óleo de cannabis foi uma ponte para dentro de si. Aquele capítulo contou a travessia vista de fora. Este conta o que aconteceu do lado de dentro.
Ele descreve assim: o barulho baixou.
Não sumiu. Baixou. As contas continuavam lá, os nomes também, as frases antigas também. Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia espaço entre um pensamento e o seguinte. Um intervalo. E, nesse intervalo, apareceu uma coisa que ele não tinha ido buscar.
Não foi, ainda, uma visão de futuro. Foi uma lembrança.
O menino da roda.
Bairo conta que se lembrou de quem era antes de ter medo. Não como quem olha uma fotografia antiga, com saudade e distância. Como quem reconhece a própria voz gravada numa fita esquecida e pensa: esse sou eu. Sempre fui eu.
Ponte, não destino
Há uma frase que ele repete quando fala desse período, e ela é a mais importante deste capítulo: a planta foi ponte, não destino.
Uma ponte serve para atravessar. Ninguém mora numa ponte. Quem para no meio dela não está em lugar nenhum: nem na margem de onde saiu, nem na margem para onde ia. Para Bairo, o valor da travessia estava na outra margem, e a outra margem não era a planta. Era ele mesmo.
Por isso ele não conta essa parte da vida como a descoberta de uma substância. Conta como um reencontro. O que ele trouxe do outro lado não cabe num frasco. Cabe numa frase simples, que ele demorou anos para conseguir dizer: dá para ficar em silêncio sem ter medo do silêncio.
Ele faz questão de deixar claro que este foi o caminho dele, e não uma receita para ninguém: quem pensa em uso medicinal começa por uma consulta com um médico, e o que a ciência já sabe sobre a planta está em A planta e a ciência.
O que o silêncio devolveu
Reconexão é uma palavra que soa macia. Na vida dele, teve consequências duras e concretas.
A primeira foi o tempo entre o golpe e a resposta. Antes, cada não chegava e já saía em forma de reação: raiva, pressa, uma decisão tomada para calar a angústia. Depois, entre o não e a resposta, passou a existir um intervalo. A capoeira chama isso de ginga. Ele aprendeu a gingar por dentro.
A segunda foi a pergunta. O homem soterrado dava respostas, porque respostas protegem. O homem reencontrado voltou a perguntar. O que eu quero, de verdade? Para quem estou construindo? O que eu faria se não tivesse medo de cair de novo?
A terceira foi o desejo. A imagem que vinha sem cor voltou colorida. Ele voltou a sonhar em voz alta, como o menino que anunciava o Brasil, e dessa vez sem pedir licença ao medo.
A quarta foi a mais difícil para quem tinha sido deixado na mão: ele voltou a aceitar ajuda. Não de qualquer um, e não sem cuidado. Mas a porta que as traições tinham trancado por dentro se abriu uma fresta. Foi por essa fresta que, mais adiante, entraram três velhos conhecidos, como conta A sétima tentativa.
O ouro nas rachaduras
Existe no Japão uma arte antiga chamada kintsugi. Quando uma tigela de cerâmica se quebra, o artesão não esconde as rachaduras. Junta os cacos com laca misturada a pó de ouro. A peça volta a servir, e as linhas da quebra ficam à mostra, brilhando. Ela não fica como era antes. Fica mais inteira do que antes, porque agora carrega a própria história no corpo.
A nova versão de Bairo não apagou o homem das quedas. Ele continua carregando a cautela, a lembrança dos sócios, o peso de tanta gente que dependia dele. Só que essas marcas deixaram de ser camadas que soterram e viraram linhas de ouro que unem. O menino da roda e o homem que caiu muitas vezes passaram a ocupar o mesmo corpo, sem briga.
É isso que ele chama de nova versão. Não é outra pessoa. É a mesma pessoa, inteira de novo, com as rachaduras à vista.
O que não mudou
Seria mais bonito contar que, depois disso, tudo ficou fácil. Não ficou.
As dívidas não se pagaram sozinhas. O mercado não passou a dizer sim. Os bancos continuaram recusando, como contou A frequência do silêncio. O que mudou não foi o mundo. Foi o lugar de onde ele olhava para o mundo.
Antes, ele enfrentava cada não de dentro do barulho. Depois, passou a enfrentar de dentro do silêncio. O não continuava doendo. Só não mandava mais.
Talvez seja essa a diferença entre se recuperar e se reencontrar. Recuperar é voltar a funcionar. Reencontrar é voltar a ser. Bairo já tinha se recuperado muitas vezes: era especialista em levantar. O que ele não sabia fazer era levantar inteiro.
A outra margem
Do outro lado da ponte havia um homem quieto, com a cabeça em ordem e uma pergunta nova: e agora, para onde?
Ele chegou a essa margem pelo próprio caminho. Mas o rumo que tomou dali em diante não veio de planta nenhuma. Veio de uma fé que ele tinha encontrado em outro lugar, ouvindo histórias de gente comum que tinha atravessado o impossível, e que nunca dependeu de nada além de confiar.
Essa fé tem capítulo próprio. Ela não se mistura com esta travessia, e ele faz questão de que seja assim. É sobre a voz que ele passou a seguir.