Bairo GonzalezLeandro · Martinez

No mundo · Ciência · 15 de dezembro de 2023

UIT e satélites: a proteção da radioastronomia rumo a 2027

Na WRC-23, os 193 países da UIT puseram na pauta de 2027 a proteção dos radiotelescópios contra satélites. A faixa do hidrogênio está no centro.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Na Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2023, a WRC-23, realizada em Dubai e encerrada em dezembro, os 193 países da União Internacional de Telecomunicações aprovaram por unanimidade um novo item para a próxima conferência: estudar como proteger a radioastronomia da interferência das grandes constelações de satélites. O item ganhou o número 1.16 na pauta da WRC-27, marcada para outubro e novembro de 2027, em Xangai. Segundo o próprio Observatório SKA, foi o primeiro item dedicado à radioastronomia em mais de uma década. No centro da discussão está a faixa de 1.400 a 1.427 MHz, a da linha do hidrogênio.

O que aconteceu

As conferências mundiais de radiocomunicações acontecem a cada três ou quatro anos e revisam o Regulamento de Radiocomunicações, o tratado que divide o espectro entre os serviços. É ali que está a nota 5.340, que proíbe todas as emissões em algumas faixas, entre elas a de 1.400 a 1.427 MHz.

Em Dubai, a proposta de novos estudos teve apoio de países como Austrália, Canadá, Chile, China, Alemanha, França, Japão, África do Sul, Tonga e Estados Unidos, com a participação do SKA e do comitê europeu de frequências para a radioastronomia. O texto aprovado virou a Resolução 681 (WRC-23). Federico Di Vruno, responsável pelo espectro no SKA, chamou a decisão de passo significativo na proteção da radioastronomia.

Em setembro de 2026, a própria UIT publicou uma análise do que está em jogo, assinada por Balthasar Indermuehle, da agência científica australiana CSIRO, que preside o grupo da UIT dedicado à radioastronomia. O texto descreve três linhas de estudo: a interferência de um único sistema de satélites em sete faixas da radioastronomia; a interferência somada de vários sistemas, o problema mais difícil; e a proteção de duas zonas de silêncio de rádio específicas. O artigo chama a faixa de 1.400 a 1.427 MHz de a banda de radioastronomia mais importante que existe, por proteger a linha de 21 cm do hidrogênio neutro.

Por que importa

A proteção de 1.400 a 1.427 MHz foi pensada num tempo de transmissores em terra. Ela proíbe emitir dentro da faixa, mas o que preocupa hoje é o que acontece ao lado e acima: milhares de satélites operando em faixas vizinhas, cujas emissões indesejadas, somadas, podem vazar para dentro do silêncio. A mesma análise da UIT lembra que serviços de satélite direto para o celular em faixas próximas também precisam ser estudados com cuidado.

O caminho até 2027 é curto. Os grupos regionais fecham as suas posições entre o fim de 2026 e 2027. O que se decidir em Xangai vai definir por quanto tempo a humanidade continuará ouvindo o hidrogênio do universo com a limpeza de hoje.

Na visão de Bairo

Para Bairo, poucos acordos humanos são tão bonitos quanto o que deixou a faixa do hidrogênio em silêncio. Países que discordam de quase tudo concordaram em não falar num pedaço do espectro, só para continuar escutando o céu. A WRC-23 mostrou que esse acordo ainda tem quem o defenda, e por unanimidade.

É daí que vem o sentido que ele dá ao número 1420: símbolo do silêncio e da escuta, medido pela régua de 21 cm. Ninguém transmite em 1420 MHz, e o projeto que ele fundou só presta homenagem à faixa, com registros digitais.

Na leitura dele, regras que protegem o que é frágil precisam ser revistas quando a tecnologia muda. Vale para o espectro e vale para a informação. Os algoritmos que protegem dados hoje também terão de mudar quando os computadores quânticos amadurecerem. É esse o benefício que ele propõe com a qrqbits: proteção pós-quântica, pensada antes de o problema chegar.

Onde isso encontra o ecossistema

O 1420mhz e o CLAIN levam o nome da faixa em discussão. Para o projeto, acompanhar a WRC-27 é uma questão de coerência: quem homenageia o silêncio tem de saber como ele é protegido. As frentes de Bairo não participam das negociações da UIT.

Fontes

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