Coragem · ficção
Perdi minha casa: como seguir
Conto quase oração de uma mãe que vive um despejo com os três filhos e descobre, entre caixas na calçada, o que nenhuma ordem judicial leva.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Uma visão — conto.
Para quem estiver ouvindo, seja quem for:
Hoje tiraram as nossas coisas de casa. Os homens chegaram às oito, com um papel e um caminhão. Foram educados. Isso doeu mais do que se tivessem sido grossos. Eles carregaram o sofá, o fogão, as camas dos meninos, as caixas que eu tinha arrumado na noite anterior sem conseguir dormir, e puseram tudo na calçada, em frente ao portão que até ontem era meu.
Meus três filhos ficaram olhando. O mais velho, de catorze, com os braços cruzados e a cara fechada de quem está segurando o choro. A do meio, de nove, abraçada ao gato. O pequeno, de quatro, achando que era mudança, perguntando se a casa nova tinha quintal.
Eu disse que tinha.
Não sei se tem. Não sei para onde vamos. A minha irmã disse que podemos ficar uns dias na casa dela, que já é pequena para a família dela. Liguei para a assistência social do bairro e disseram para ir lá amanhã cedo. Vou.
Eu atrasei o aluguel quatro meses. Perdi o emprego na fábrica em março, e desde então faço faxina quando aparece. Não é desculpa. É o que aconteceu.
As vizinhas olham pela janela. Algumas desceram para ajudar. Uma trouxe café. Outra trouxe uma lona, porque está com cara de chuva. Eu não sabia que elas gostavam de mim.
Agora estou sentada numa caixa, na calçada, e escrevo isto no caderno do meu filho, porque preciso dizer a alguém.
Agora há pouco, olhando as nossas coisas no chão, eu tive uma visão.
Vi as nossas coisas como elas eram antes de serem coisas. O sofá, quando o compramos de segunda mão e o meu falecido marido o carregou nas costas três quarteirões, rindo. O fogão, onde eu fiz o bolo de todos os aniversários. As camas, onde os meninos tiveram febre e eu fiquei a noite acordada. Vi que nada daquilo estava na calçada. Na calçada estavam madeira, ferro e tecido. O resto continuava comigo.
Depois vi a minha mãe. Ela também foi despejada, quando eu tinha seis anos. Eu tinha esquecido. Lembrei agora: a carroça, as panelas amarradas, a minha mãe cantando no caminho para a gente não chorar. Eu achava que era uma aventura. Para ela, devia ser isto. Uma calçada.
E ela cantou.
Vi ainda uma coisa que não sei explicar. Vi meu filho mais velho, já homem, contando esta história a alguém. Não com vergonha. Com orgulho. Ele dizia: "A minha mãe nunca deixou a gente sem rumo, nem no dia em que a gente ficou sem casa".
Eu não sei se isso vai acontecer. Mas resolvi fazer como a minha mãe.
Levantei-me da caixa. Pedi ao mais velho que ajudasse a vizinha a esticar a lona. Pedi à do meio que escolhesse uma caixa para o gato. E pus o pequeno no meu colo e comecei a cantar a música da carroça, a que eu tinha esquecido.
O mais velho, que estava de cara fechada, olhou para mim. Depois descruzou os braços. Não cantou. Mas ficou perto.
Para quem estiver ouvindo: obrigada pelas vizinhas, pelo café, pela lona. Amanhã eu vou à assistência social cedo. Hoje à noite durmo na casa da minha irmã, com os meninos no chão da sala.
A casa ficou. A gente vai junto.
Bairo conta que também ficou sem chão, longe de casa, e que recomeçou do lugar que restava, do zero, com a pessoa que estava ao lado. O recomeço dele teve endereço de bairro. Leia: O sol é para todos.
O caminho
Uma casa pode ser tirada; o que vocês viveram nela não. Procure logo o CRAS, a assistência social do seu município, e a Defensoria Pública, que atende de graça. E deixe as pessoas ajudarem: aceitar a lona e o café também é coragem. Se o desespero chegar, o CVV atende no 188.