Falência
Empresa quebrou: o que fazer com os funcionários?
Fale cedo e com verdade, priorize salários e verbas rescisórias e entregue os documentos do seguro-desemprego. Gente vem antes de fornecedor.
Quando a empresa quebra, o peso não é só seu. Do outro lado da folha de pagamento há aluguel, mercado e escola de filho de outras famílias. Essa responsabilidade dói, e é exatamente ela que pede clareza agora.
O que fazer agora
- Fale cedo e fale a verdade. Funcionário que descobre o fechamento pela porta trancada perde a chance de se planejar. Reúna a equipe, explique a situação sem drama e sem promessas que você não pode cumprir.
- Conheça a ordem de prioridade. Na falência, a Lei 11.101/2005 coloca os créditos trabalhistas (até 150 salários mínimos por pessoa) à frente de quase todos os outros. Mesmo fora de um processo, trate salários e verbas rescisórias como as contas que vêm antes na fila.
- Cumpra os prazos da rescisão. A CLT dá até 10 dias após o fim do contrato para pagar as verbas e entregar os documentos. Se não houver dinheiro para tudo, procure o advogado antes do prazo e proponha um acordo formal, que pode ser homologado na Justiça do Trabalho.
- Entregue os documentos, mesmo sem dinheiro. Chave do FGTS, guias do seguro-desemprego e a baixa na carteira de trabalho digital permitem que a pessoa receba o que é dela por outros caminhos. Reter documento só piora a vida de quem já está perdendo o emprego.
- Ajude a recolocar. Cartas de referência, contatos, uma mensagem a parceiros perguntando se estão contratando. Custa pouco e muda muito.
- Não trate a quebra como "força maior". Crise financeira do negócio é risco do empregador: a CLT diz que a imprevidência do empregador exclui a força maior (art. 501, §1º) e que os direitos do contrato continuam valendo mesmo na falência ou no fechamento (art. 449). A indenização pela metade do art. 502 não serve para crise comum; usá-la por conta própria costuma virar condenação depois.
- Cuide de você também. Carregar a culpa de muitas famílias é pesado. Se ficar insuportável, CVV no 188, gratuito e 24 horas.
Quando aconteceu com Bairo
O capítulo mais duro da história de Bairo é o da quebra em que outras vidas dependiam dele. Ele conta que, quando o negócio em que tinha investido não se sustentou, havia muita gente que dependia dele. Ele fala delas como vidas humanas, não como linhas de uma planilha.
Naquele momento, conta ele, tomou uma decisão improvável. Em vez de voltar ao terreno conhecido, decidiu fazer algo que não sabia fazer e construir de novo. A tentativa seguinte também deu errado, e ele foi deixado na mão por pessoas que tinha ajudado. Continuou mesmo assim.
Anos depois, as frentes que ele fundou passaram a falar de vida humana e de tempo de vida como medida. Quem conhece o capítulo das cinquenta vidas entende por que esse tema é tão caro a ele.
O caminho
Liderar não acaba quando o dinheiro acaba. É justamente aí que a liderança aparece: na conversa honesta, no documento entregue, no esforço para que ninguém saia pior do que precisava. As pessoas esquecem muita coisa, mas lembram de como foram tratadas na queda.
Se houver qualquer sobra, mesmo pequena, use-a para fechar as pendências com as pessoas antes de pensar em salvar patrimônio. Um bem vendido para pagar rescisões é um bem bem empregado. E, quando um dia você empreender de novo, essas mesmas pessoas podem voltar a trabalhar com você, porque viram como você agiu no pior momento. Reputação de quem trata bem a equipe na queda é capital que nenhum credor consegue tomar.