Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Despejo

Fui despejado: para onde ir e como recomeçar?

Garanta onde dormir hoje, guarde documentos, procure o CRAS e a rede de apoio e só depois pense no próximo aluguel. Uma etapa de cada vez.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Sair de casa com as coisas em sacolas é uma das experiências mais duras que alguém pode viver. Não há frase bonita que resolva isso hoje. Há, porém, uma ordem de passos que impede que um dia ruim vire uma vida ruim.

O que fazer agora

  1. Resolva a noite de hoje. Casa de parente, amigo, alguém da igreja ou da comunidade. Se não houver ninguém, procure o CRAS ou o CREAS da cidade, ou ligue para a central de assistência social do município, que encaminha para acolhimento temporário. Onde existe, o Centro POP atende quem ficou sem moradia, com banho, refeição e endereço para receber correspondência.
  2. Proteja os documentos. RG, CPF, certidões, carteira de trabalho, cartão do SUS, documentos das crianças e comprovantes. Mantenha tudo numa pasta e fotografe cada folha. Sem documento, todo recomeço fica mais lento.
  3. Guarde seus bens com segurança. Se não couberem com você, peça a alguém de confiança para guardar, ou procure um depósito temporário. Não abandone móveis e objetos no imóvel; organize a retirada. Se o despejo foi cumprido com os seus móveis dentro, eles vão para um depositário (Lei 8.245/1991, art. 65, §1º): pergunte no processo, ou à Defensoria, onde estão e como retirá-los.
  4. Atualize o Cadastro Único. É a porta para vários programas sociais, inclusive de moradia, e em muitos municípios para o aluguel social. As regras variam de cidade para cidade; o CRAS informa.
  5. Mantenha as crianças na escola. A escola é a rotina que segura os pequenos quando tudo muda. Avise a direção sobre a mudança, para que possam apoiar.
  6. Só depois, procure o próximo lugar. Com a renda organizada, busque um aluguel que caiba no orçamento, mesmo que menor. É melhor um teto pequeno e pago do que um maior que vira outro atraso.
  7. Não carregue sozinho. Se a tristeza virar desespero, o CVV atende no 188, de graça, 24 horas. A UBS e o CAPS também acolhem.

Quando aconteceu com Bairo

Bairo Leandro Gonzalez Martinez não conta um despejo na própria história. Conta outra forma de ficar sem lugar.

Ele conta que chegou ao Brasil em 2002, com uma empresa de educação, em cargo de gerência, e que, quando decidiu sair dela, ficou sem documentos em mãos, longe de casa, com medo e sem caminho. Foram anos difíceis, na sombra, como para tantos imigrantes antes e depois dele.

O recomeço teve endereço de bairro. Com a companheira, quando a filha nasceu, ele abriu um salão. Não deu tão certo quanto queriam, mas deu muito certo de outro jeito: dali nasceu um curso de tratamentos capilares e, depois, uma marca própria de cosméticos.

O caminho

Recomeçar sem casa parece começar abaixo do zero. Mas a história mostra que o zero também é chão. Bairo diz que o sol é para todos, mas a sombra, no calor, é para poucos. Quem já esteve fora da sombra sabe o valor de cada metro de teto, e constrói o próximo lar com mais cuidado do que o anterior.

Nos primeiros dias depois da saída, permita-se sentir a perda sem tomar decisões grandes. A casa foi embora, mas a vida continua tendo endereço em você e nas pessoas que estão ao seu lado. Quando a poeira baixar, faça um plano simples para os próximos três meses: onde morar, quanto guardar, que conta negociar. Um plano curto e possível vale mais que um sonho enorme que paralisa.

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