Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Propósito · ficção

Como ser a pessoa que eu quero ser

Conto sobre uma executiva brasileira em Dubai que, ao amanhecer, num barco de madeira no canal, vê a mulher que ela pode ser e não sabe o caminho.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Uma visão — conto.

O barco de madeira cruzava o canal por uma moeda. Ela pegava aquele barco todo dia de manhã, entre o hotel e o escritório, porque era mais rápido que o carro e porque era o momento do dia em que ninguém falava com ela.

Tinha quarenta e dois anos, era brasileira, trabalhava em Dubai havia seis anos para uma empresa de logística. Tinha um cargo comprido no cartão de visita, um apartamento alto, um salário que a mãe, no interior de Minas, achava irreal. Tinha também uma pergunta que a acordava às quatro da manhã e não a deixava voltar a dormir: é só isso?

Não era ingratidão. Ela sabia o que tinha. Era outra coisa. Uma sensação de estar vestindo uma roupa muito bonita que não era do tamanho dela.

Naquela manhã, o barco estava quase vazio. O barqueiro, um homem velho de barba branca, remava devagar, deixando o motor desligado, porque a água estava calma. O sol nascia por trás das casas antigas do outro lado, as de pedra coral e torres de vento, e a água do canal ficou cor de cobre.

Ela fechou os olhos. E viu.

Viu uma mulher sentada à mesa de uma cozinha simples. A mulher tinha a cara dela, mas mais velha, com rugas fundas nos olhos de tanto rir. Não sabia onde era a cozinha. Podia ser no Brasil, podia ser em qualquer lugar. Em volta da mesa, havia gente: jovens, alguns de outros países, alguns com uniforme de trabalho, outros com caderno. A mulher estava ouvindo. Só ouvindo. E de vez em quando dizia uma frase curta, e os jovens anotavam.

Na parede, um mapa cheio de linhas. Rotas. Ela entendeu: a mulher ensinava logística a quem nunca tinha tido chance de aprender. Gente que carregava caixas e queria saber para onde as caixas iam. Gente que queria abrir o próprio negócio e não sabia como fazer a mercadoria chegar.

A mulher da visão parecia em paz. Não a paz de quem tem tudo. A paz de quem está no lugar certo.

Ela abriu os olhos. O barco estava chegando ao outro lado.

Não sabia como ir daqui para lá. Não sabia se devia largar o emprego, voltar para o Brasil, abrir uma escola, fazer um curso. Não tinha mapa. Só tinha a imagem.

O barqueiro encostou no cais e estendeu a mão para ajudá-la a subir. Ela hesitou. E perguntou a ele, em inglês, sem saber bem por quê:

— O senhor sempre soube que ia fazer isso?

O velho riu.

— Não. Eu fui pescador, fui mecânico, fui marinheiro em navio grande. Vim parar aqui. Agora atravesso gente de um lado para o outro. Todo dia vejo alguém sair do barco diferente de quando entrou.

— E isso é o seu propósito?

— Não sei a palavra. Sei que é o meu barco.

Ela subiu ao cais. Naquele dia, no escritório, abriu uma página em branco e escreveu, no alto: o que eu já sei que aquela mulher vai precisar saber? E começou a lista. Rotas. Contratos. Gente. Paciência.

Percebeu que não precisava descobrir o caminho inteiro. Precisava lembrar da imagem e dar o passo seguinte. Não aprender quem era a mulher da cozinha. Lembrar.

No sábado, foi a um centro comunitário perto do porto e ofereceu duas horas por semana para ensinar logística básica a trabalhadores. Ninguém lhe pagou. Ela nunca dormiu tão bem.

Bairo conta que, num tempo de fé e de silêncio, viu a sua melhor versão, saiu dali com uma imagem e sem um mapa, e pediu não para aprender o caminho, mas para lembrar. Leia: O Deus do impossível.

O caminho

A melhor versão de você raramente vem com mapa; costuma vir como uma imagem. Guarde a imagem e pergunte o que você já sabe que ela vai precisar saber. Depois dê um passo pequeno na direção dela, esta semana.

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