Etapa 7
A aproximação da caverna: a oportunidade que engana
Etapa 7 da Jornada do Herói: com o capital dos eventos, Bairo investe numa empresa que não era o que parecia. Como reconhecer a caverna antes de entrar.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Depois de anos de provas, enfim uma reserva. O capital juntado com eventos e impressão digital está na conta. Pela primeira vez, Bairo pode escolher em vez de correr atrás.
Chega uma oportunidade. Uma empresa, uma sociedade, um lugar de sócio investidor. Desta vez ele não vai fundar do zero. Vai investir num negócio que, pelo que se apresenta, já está andando.
Parece o descanso merecido de quem lutou muito. A assinatura sai. O dinheiro entra.
Ele ainda não sabe, mas acaba de chegar à boca da caverna.
O que é esta etapa
Na Jornada do Herói, de Joseph Campbell (1949), organizada em doze etapas por Christopher Vogler, a sétima etapa é a aproximação da caverna oculta.
É o trecho em que o herói chega perto do lugar mais perigoso da jornada. Nos mitos, é a entrada do labirinto, a floresta escura, o castelo do inimigo. Na vida, costuma ser algo menos dramático e mais traiçoeiro: uma decisão importante tomada num momento de confiança, um passo que parece seguro e não é.
Vogler descreve essa etapa como uma preparação. A tensão cresce. Às vezes o herói percebe os sinais e se prepara; às vezes só vai entendê-los depois, olhando para trás. A caverna ainda não é a queda. É o caminho até ela.
Na vida de Bairo
A aproximação de Bairo teve cara de oportunidade.
Depois da saída dolorosa da sociedade anterior, ele tinha se reinventado. Os eventos e a impressão digital tinham dado certo o bastante para gerar capital. E, pela primeira vez, ele decidiu jogar em outra posição: em vez de fundar, investir. Entrou numa empresa como sócio investidor.
O negócio não era o que parecia. No relato dele, a frase é curta: o negócio não era o que parecia. O que se apresentava como uma empresa em andamento não se sustentou.
Esta página não conta quem, nem como. A história é de Bairo, e não de quem estava do outro lado da mesa. O que importa aqui é outra coisa, mais útil para quem lê: a caverna raramente se anuncia como caverna. Ela se anuncia como alívio.
Há uma ironia dura nessa etapa. O homem que tinha aprendido a desconfiar dos "nãos" encontrou o perigo num "sim" fácil demais. Depois de tantas portas fechadas, uma porta aberta pode baixar a guarda de qualquer um. Quem passou anos ouvindo que não daria certo fica vulnerável, justamente, à primeira proposta que diz que vai dar.
E havia mais gente envolvida do que ele. A próxima etapa conta o tamanho do que estava em jogo: as vidas que, ele conta, dependiam dele.
Na sua vida
Muita gente que hoje está quebrada não caiu por preguiça nem por falta de ideia. Caiu numa oportunidade que parecia a saída.
Se você é empreendedor e quebrou, pode reconhecer essa etapa naquele sócio que chegou com tudo pronto, no contrato assinado com pressa, no "investimento" que prometia demais. Se você é imigrante, pode reconhecer a proposta de trabalho boa demais, o intermediário que pede dinheiro adiantado, o documento que alguém promete resolver por fora. Se você está recomeçando, pode estar exatamente agora diante de uma porta que parece alívio.
Perguntas para examinar a porta antes de entrar:
- Essa oportunidade apareceu num momento em que você estava cansado, sem dinheiro ou precisando muito de uma vitória?
- Você consegue explicar, numa frase, de onde vem o dinheiro desse negócio?
- Alguém está te pedindo pressa, sigilo ou pagamento adiantado?
- Quem, fora da conversa, revisou os números e os documentos?
Três passos antes de assinar qualquer coisa
- Verifique o que é verificável. Consulte o CNPJ na Receita Federal, a situação na Junta Comercial, os processos no site do tribunal do estado e as reclamações em canais públicos. Se a proposta envolve investimento oferecido ao público, consulte a CVM para saber se a oferta é autorizada. Dez minutos de pesquisa valem mais do que uma boa conversa.
- Ponha um terceiro na mesa. Um contador, um advogado, um amigo que entenda do setor. Se não puder pagar, procure a Defensoria Pública ou o núcleo de prática jurídica de uma faculdade. A caverna se mostra melhor para quem olha de fora.
- Defina quanto você pode perder. Antes de entrar, decida o valor máximo que você aceita arriscar sem colocar em perigo a casa, a comida e as pessoas que dependem de você. Nunca ponha numa única porta tudo o que levou anos para juntar.
Desconfie de promessa de ganho rápido e seguro. Em finanças, a palavra "garantido" é o primeiro sinal da caverna.
Nada disso é culpa retroativa para quem já caiu. É mapa para não cair de novo.
A frase da etapa
"Nem toda porta aberta é uma entrada."
Frase escrita para esta série, a partir da história de Bairo.
Próxima etapa
Etapa 8: A provação suprema, quando você perde tudo