Bairo GonzalezLeandro · Martinez

O hidrogênio · Ciência

O que é o Water Hole do SETI

O Water Hole é a faixa de rádio entre o hidrogênio (1420 MHz) e a hidroxila (1662 MHz), proposta em 1971 por Bernard Oliver como ponto de encontro cósmico.

Na savana, quando a seca aperta, todos os bichos acabam no mesmo lugar: o bebedouro. O leão e a zebra, o elefante e o pássaro. Não porque combinaram, mas porque todos precisam de água, e todos sabem onde ela está.

Em 1971, um engenheiro olhou para o espectro de rádio e perguntou se o universo não teria também o seu bebedouro.

Uma pergunta séria

A ideia de procurar sinais de outras civilizações ganhou forma científica em 1959, quando os físicos Giuseppe Cocconi e Philip Morrison publicaram na revista Nature um artigo propondo escutar perto da linha do hidrogênio, 1420 MHz. O raciocínio era simples: qualquer civilização que estudasse o céu conheceria esse sinal, porque o hidrogênio é o elemento mais abundante do universo.

Em 1960, Frank Drake fez a primeira tentativa organizada, o Projeto Ozma, apontando uma antena para duas estrelas próximas. Ouviu silêncio. A busca, que mais tarde ganhou o nome de SETI, sigla em inglês para busca por inteligência extraterrestre, estava aberta.

O bebedouro cósmico

Em 1971, a NASA reuniu engenheiros e cientistas no Projeto Cyclops, um estudo sobre como seria um grande sistema de escuta. Ali, Bernard Oliver, engenheiro que tinha dirigido a pesquisa da Hewlett-Packard e que mais tarde chefiaria o programa SETI da NASA, chamou a atenção para um trecho especial do espectro.

De um lado, em 1420 MHz, está a linha do hidrogênio, H. Do outro, perto de 1662 MHz, estão as linhas da hidroxila, OH. Juntos, H e OH formam H₂O: água. Oliver batizou o intervalo entre eles de water hole, o bebedouro. O nome é um trocadilho com o lugar onde, na natureza, as espécies se encontram.

A ele se atribui a pergunta e a resposta que resumem a ideia: "Where shall we meet our neighbors? At the water-hole, where species have always gathered." Onde vamos encontrar nossos vizinhos? No bebedouro, onde as espécies sempre se reuniram.

Por que ali é quieto

O trocadilho é bonito, mas a escolha tem também razão física. A faixa fica numa região do espectro chamada janela de micro-ondas, onde o ruído natural é mínimo. Abaixo dela, domina o chiado de rádio da própria galáxia. Acima, crescem o ruído inerente aos próprios receptores e a absorção pela atmosfera. Entre os dois barulhos, existe um vale de silêncio relativo.

Ali estão os sinais da água, a molécula de que a vida, como a conhecemos, depende. Para quem procura vida, poucas faixas fariam tanto sentido. Por isso muitos programas de busca, inclusive o SETI@home, escutaram nessa região.

Até hoje, nenhum sinal confirmado de outra civilização foi encontrado. A pergunta continua aberta.

Fontes: SETI League, o que é o Water Hole · Water hole (rádio) · Projeto Cyclops · Sky & Telescope, Projeto Ozma

Na visão de Bairo

Bairo se encanta com a ideia de que, para os cientistas, o lugar mais provável de encontro entre seres que nunca se viram é o silêncio perto do hidrogênio e da água. Não um grito. Um vale quieto, onde alguém escuta.

Ele chama 1420 MHz de frequência do silêncio e, na fé dele, é ali que se pode encontrar o seu Deus. A imagem do bebedouro conversa com isso: um lugar onde todos acabam indo, cada um com a sua sede, sem precisar ser do mesmo bando. Para ele, a fé que vale não exclui. Quem chega ao bebedouro, chega.

E aqui a regra de sempre: para Bairo, 1420 é símbolo. A busca do SETI escuta, e ele também só escuta. Ninguém transmite em 1420 MHz.

Para você

Toda vida tem sede de alguma coisa. De sentido, de descanso, de companhia, de uma segunda chance.

O Water Hole sugere um caminho para encontrar o que você procura: ir até onde a sua sede e a dos outros se cruzam. Quem busca sentido costuma achar, no mesmo lugar, outras pessoas buscando também. Um grupo, uma conversa franca, uma pausa em silêncio.

E sugere outra coisa: às vezes o encontro não acontece logo. Drake ouviu silêncio em 1960, e mais de sessenta anos depois a busca segue. Persistir não é garantia de resposta. É o único jeito de estar lá se ela vier.

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