Bairo GonzalezLeandro · Martinez

O futuro

Instituto CEASA: o futuro em que a fome deixa de ser a dor

A visão de Bairo Gonzalez para o Instituto CEASA: o excedente das centrais de abastecimento virando alimento que dura dois anos fora da geladeira.

Na mesma madrugada em que um caminhão de tomates vai para o lixo, alguém, a poucos quilômetros dali, vai dormir com fome.

Hoje

O Instituto CEASA é a frente humanitária do ecossistema. O projeto mais recente é uma fábrica de alimentos que duram até dois anos fora da geladeira, produzidos por autoclave, o mesmo princípio de esterilização por calor e pressão usado há décadas na indústria de conservas. A matéria-prima é o excedente das centrais de abastecimento: comida boa que sobra porque não foi vendida a tempo.

Junto ao Instituto nasceu o 1420mhz.org, que Bairo define como um canal de comunicação e de elevação. A ideia que une os dois é a mesma: a tecnologia e a economia só fazem sentido se chegarem a quem está do lado de fora.

A dor que ele viu

Bairo conhece as centrais de abastecimento por dentro. Viu o que acontece no fim do dia com o que não vendeu: a fruta que amadureceu demais, a verdura que murchou um pouco, o lote inteiro que perdeu a janela de venda. Comida que alimentaria famílias, descartada por uma questão de horas.

E conhece a fome de outro jeito também. Já esteve quebrado, sem saber como pagaria as contas do mês, com gente dependendo dele. Sabe que a fome não é só a falta de comida no prato. É a vergonha, o cansaço, a impossibilidade de pensar em qualquer outra coisa. Uma pessoa com fome não sonha. Sobrevive.

Os números do mundo confirmam o que ele viu. O relatório da ONU sobre desperdício de alimentos (UNEP, 2024) estima que 1,05 bilhão de toneladas de comida foram desperdiçadas em 2022, cerca de 19% do que chegou aos consumidores. Enquanto isso, segundo o relatório SOFI 2025, cerca de 673 milhões de pessoas passaram fome em 2024. A comida existe. Falta o caminho.

O futuro que ele vê

2030. Ele imagina a primeira fábrica funcionando ao lado de uma central de abastecimento, recebendo no fim do dia o que antes ia para o descarte. A comida é processada no mesmo dia, embalada, e passa a durar meses sem geladeira. Ele vê esses alimentos chegando a cozinhas comunitárias, abrigos, escolas, regiões atingidas por enchente ou seca, lugares onde a geladeira é justamente o que falta.

2040. No futuro que Bairo descreve, há uma fábrica ao lado de cada grande central, no Brasil e em outros países onde o ecossistema chegou. O CEASA Bank registra o que sobra; o Instituto transforma; a rede logística leva. Ele imagina que um terremoto, uma enchente, uma crise, encontrem estoques prontos, não promessas de doação. E que a fome deixe de ser o problema principal de uma comunidade, para que ela possa, enfim, ocupar-se de outras dores.

2050. No horizonte longo, ele imagina um mundo em que jogar comida fora soe tão estranho quanto hoje soa deixar uma torneira aberta a noite inteira. Em que o excedente de uma região é a reserva de outra. E em que uma criança, ao aprender na escola sobre a fome do começo do século, pergunte como era possível haver tanta comida e tanta gente com fome ao mesmo tempo.

É uma visão. Bairo sabe que entre a visão e o prato existe um longo caminho de trabalho, regras sanitárias e logística. É nele que ele quer andar.

O que isso muda na vida de uma pessoa

Imagine Josefa, que coordena uma cozinha comunitária num bairro da periferia. Toda segunda-feira ela não sabe quantas refeições vai conseguir servir. Depende de doação, e doação depende de sorte.

No futuro que Bairo imagina, chega à cozinha de Josefa um lote de alimentos prontos, feitos com o excedente da central da cidade, que duram mais de um ano no armário. Ela empilha as caixas na despensa e, pela primeira vez, faz um cardápio para o mês inteiro.

Josefa não precisa mais escolher quem come primeiro. E as crianças do bairro, que antes chegavam à escola pensando no almoço, começam a chegar pensando em outra coisa.

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