Dor e fé · Mente
O que é o Gateway Process da CIA
O relatório de 1983 existe e está no arquivo da CIA. A promessa de "manifestar realidades" não está provada. O que ele diz e o que o silêncio faz.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Entre 2023 e 2024, vídeos curtos começaram a passar de celular em celular. Um documento da CIA, diziam as legendas, ensinava a sair do corpo, a viajar no tempo e a "manifestar novas realidades" com a mente. Bastava ouvir certos sons, respirar de certo jeito e acreditar. Milhões de visualizações depois, o "Gateway Process" virou assunto em podcasts, livros de bolso e cursos pagos.
A primeira coisa a dizer é que o documento existe. A segunda é que ele não prova o que as redes dizem que prova. A terceira, e talvez a mais útil, é que há algo verdadeiro escondido no meio da confusão.
O documento existe
O texto se chama, em inglês, Analysis and Assessment of Gateway Process, "análise e avaliação do processo Gateway". Tem 29 páginas e é datado de 9 de junho de 1983. O autor é o tenente-coronel Wayne M. McDonnell, do Exército dos Estados Unidos, lotado num grupo de operações do comando de inteligência do Exército em Fort Meade, Maryland.
Ele foi liberado para divulgação em 10 de setembro de 2003, como mostra o carimbo no próprio papel, e está no arquivo eletrônico da CIA com o código CIA-RDP96-00788R001700210016-5. Ficou fácil de achar a partir de janeiro de 2017, quando a agência pôs na internet cerca de 12 milhões de páginas que antes só podiam ser lidas em computadores dentro do Arquivo Nacional americano. Uma curiosidade alimenta o mistério até hoje: a página 25 nunca apareceu, e pedidos formais de acesso não a localizaram.
Detalhe que quase ninguém conta: apesar de estar no arquivo da CIA, o relatório não foi escrito pela CIA. Foi escrito por um oficial do Exército, a pedido do seu comandante, e acabou guardado no acervo da agência junto com outros papéis de pesquisas da época.
O que ele avaliava
O "Gateway Experience" era, e ainda é, um programa de treinamento do Monroe Institute, uma organização fundada na Virgínia pelo radialista e empresário Robert Monroe. O programa usa gravações de áudio com uma técnica que Monroe chamou de Hemi-Sync: sons de frequências ligeiramente diferentes em cada ouvido, que o cérebro percebe como uma batida, combinados com relaxamento, respiração e instruções guiadas.
McDonnell fez o curso e recebeu uma tarefa direta, que abre o relatório: avaliar a mecânica e a "praticidade final" da técnica. O contexto era a Guerra Fria. Os militares americanos tinham programas para testar se capacidades mentais incomuns, como a chamada visão remota, poderiam servir à espionagem.
Para explicar o que acontecia, McDonnell recorreu a teorias que circulavam na época: os modelos do engenheiro Itzhak Bentov sobre ressonância e consciência, a ideia do neurocientista Karl Pribram e do físico David Bohm de que o cérebro e o universo funcionariam como hologramas, e conceitos de física quântica. Concluiu que havia uma base "racional" para considerar o processo plausível e propôs um treinamento em etapas, com as fitas, que deveria levar até experiências fora do corpo.
Por que isso não prova nada
Não houve teste. O relatório é a avaliação de um oficial que fez o curso. Não tem grupo de comparação, nem medida objetiva, nem resultado registrado de forma que outro cientista pudesse repetir.
As teorias eram especulações. O "universo holográfico" e o uso de física quântica para explicar a consciência eram, e continuam sendo, hipóteses sem demonstração. A física quântica descreve o comportamento de partículas. Não há evidência de que pensamentos alterem a realidade por meio dela.
O próprio governo encerrou o caminho. Os programas militares de visão remota, conhecidos pelo nome final de Stargate, foram avaliados em 1995 pelos American Institutes for Research, a pedido da CIA. A conclusão operacional foi que as informações eram vagas demais para servir à inteligência, e o programa foi encerrado em 1995.
A técnica de som tem evidência fraca. Uma revisão sistemática publicada em 2023 na PLOS ONE analisou 14 estudos sobre o efeito das batidas binaurais na atividade elétrica do cérebro. A maioria trouxe resultados ao menos em parte inconsistentes com a ideia de que esses sons "sintonizam" o cérebro.
O documento existe. A promessa, não está provada.
O que é verdade no meio disso
Tire os hologramas, a física e as viagens fora do corpo. O que sobra do Gateway é uma prática conhecida: sentar quieto, respirar devagar, prestar atenção num som, deixar os pensamentos passarem. Isso tem nome mais simples, meditação, e tem pesquisa séria.
Revisões de ensaios clínicos mostram que programas de meditação reduzem, de forma moderada, ansiedade, sintomas depressivos e dor. Não mudam a realidade lá fora. Mudam a forma como a pessoa a atravessa. O silêncio, este sim, faz bem.
Fontes: CIA, documento CIA-RDP96-00788R001700210016-5 · The Black Vault, o relatório e a página 25 · CIA, CREST na internet, 2017 · FAS, programa Stargate · Ingendoh e colegas, PLOS ONE, 2023 · Goyal e colegas, JAMA Internal Medicine, 2014
Na história de Bairo
Bairo Leandro Gonzalez Martinez cita o Gateway quando fala de algo que ele viveu: a experiência de, no silêncio, enxergar com clareza a pessoa que queria ser. Ele chama isso de lembrar a melhor versão, e usa a física quântica como linguagem para dizer que tudo está conectado e que tudo é possível para quem crê. É a metáfora dele, a forma de contar uma vivência de fé. Não é uma afirmação da ciência, e ele não a apresenta como tal.
O que a história dele mostra de concreto é outra coisa: depois do silêncio, vieram seis meses de trabalho em casa, diante de um computador, construindo o que ele não sabia construir. A visão não substituiu o esforço. Deu direção a ele.
Para você
Se o Gateway te fascina, aproveite a parte que funciona: dez minutos por dia de silêncio e atenção. Sem fone especial, sem curso caro, sem promessa.
Desconfie de quem vende "manifestação" com garantia, principalmente se o pacote pedir dinheiro, mudar seus remédios ou te afastar de quem você ama.
E se você busca no silêncio uma saída para uma dor muito grande, procure também um profissional. Se a noite pesar, ligue 188.