Dor e fé · Mente
O que a meditação faz com o cérebro
Meditação reduz ansiedade, depressão e dor de forma moderada e acalma a mente que divaga. Mas não muda o cérebro em oito semanas, e às vezes faz mal.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Experimente agora, antes de ler o resto: feche os olhos por trinta segundos e preste atenção só na sua respiração.
Se você é como quase todo mundo, em poucos segundos a mente foi embora. Para uma conta, uma conversa de ontem, uma preocupação de amanhã. Em 2010, dois psicólogos de Harvard, Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, pediram a milhares de pessoas que respondessem pelo celular, em momentos aleatórios do dia, o que estavam fazendo e no que estavam pensando. Em quase metade das vezes, a cabeça estava longe do que as mãos faziam. E, em média, quem estava com a mente longe estava menos feliz.
A meditação, em quase todas as suas formas, é um treino para perceber essa fuga e voltar. Parece pouco. A ciência mostra que não é.
A rede que não desliga
Quando não estamos concentrados em nada, uma parte do cérebro entra em atividade. Os neurocientistas a chamam de rede de modo padrão. É ela que fica ativa quando a mente divaga, ruminando o passado, ensaiando o futuro, falando de nós mesmos para nós mesmos.
Em 2011, o psiquiatra Judson Brewer, então em Yale, publicou na revista PNAS um estudo que comparou meditadores experientes com pessoas que nunca tinham meditado, dentro de um aparelho de ressonância magnética. Nos meditadores, as áreas centrais dessa rede ficavam relativamente mais quietas durante diferentes tipos de meditação, e se ligavam mais a regiões de autocontrole e monitoramento. Em linguagem simples: eles divagavam menos e percebiam mais rápido quando divagavam.
É um estudo de comparação entre grupos, não um experimento que transforma alguém em meditador. Mas abriu uma linha de pesquisa que ajuda a entender por que a prática acalma a ruminação, aquele pensamento que gira sem sair do lugar.
O que muda na vida
O resultado mais citado sobre efeitos práticos veio em 2014, numa revisão da Universidade Johns Hopkins publicada no JAMA Internal Medicine. Os pesquisadores analisaram 47 ensaios clínicos, com 3.515 participantes, sobre programas de meditação.
Encontraram evidência moderada de que programas de atenção plena melhoram ansiedade, sintomas depressivos e dor, com efeitos pequenos a médios, parecidos com os de um antidepressivo em pessoas da atenção primária. Encontraram evidência baixa ou insuficiente para outros resultados muito anunciados, como humor positivo, atenção, sono e peso. E não encontraram vantagem da meditação sobre outros tratamentos ativos, como remédios, exercício e terapia.
Ou seja: funciona para algumas coisas, de forma moderada, e não substitui tratamento.
O que não muda tão rápido
Por anos, circulou a ideia de que oito semanas de meditação "engrossavam" partes do cérebro. Em 2022, uma equipe da Universidade de Wisconsin-Madison, dirigida por Richard Davidson, um dos maiores entusiastas da meditação na ciência, testou isso com rigor. Juntou dois ensaios com 218 pessoas que nunca tinham meditado, sorteadas para um curso de oito semanas, para um programa de bem-estar sem meditação ou para nenhum curso, e fez ressonâncias antes e depois.
Não encontraram diferença na estrutura do cérebro entre os grupos. Publicaram o resultado na Science Advances assim mesmo. É o tipo de honestidade que dá credibilidade a um campo.
Quando faz mal
Meditação também tem efeitos adversos, e quase ninguém fala disso. Uma revisão sistemática publicada em 2020 na Acta Psychiatrica Scandinavica, liderada por Miguel Farias, reuniu 83 estudos com mais de 6 mil participantes. Cerca de 8% relataram algum efeito adverso, os mais comuns ansiedade, sintomas depressivos e alterações de percepção, inclusive em pessoas sem histórico de problemas mentais. A proporção é parecida com a da psicoterapia em geral.
Quem passou por trauma, tem crises de pânico ou histórico de psicose deve começar devagar, com orientação, e parar se a prática piorar o que sente.
Fontes: Killingsworth e Gilbert, Science, 2010 · Brewer e colegas, PNAS, 2011 · Goyal e colegas, JAMA Internal Medicine, 2014 · Kral e colegas, Science Advances, 2022 · Farias e colegas, Acta Psychiatrica Scandinavica, 2020
Na história de Bairo
Bairo Leandro Gonzalez Martinez descreve o tempo antes da virada como um barulho que não desligava: contas, nomes, frases antigas tocando sem parar. É uma descrição quase exata do que a neurociência chama de ruminação.
O que ele conta ter encontrado foi o intervalo entre um pensamento e outro, e a capacidade de ficar em silêncio sem ter medo do silêncio. Ele chegou lá pelo caminho que conta nos capítulos da história, de fé e de busca interior, e não por um curso de meditação. Mas a experiência que ele descreve, de perceber o barulho e voltar, é a mesma que os meditadores treinam. Para ele, foi nesse silêncio que nasceu a coragem de recomeçar.
Para você
Comece pequeno. Cinco minutos por dia, no mesmo horário, sentado, prestando atenção na respiração. Quando a mente fugir, e ela vai fugir, perceba e volte, sem brigar com você. O exercício é justamente esse retorno.
Se preferir, use uma oração curta, uma palavra ou um som como âncora. Para quem tem fé, isso pode ser oração. Para quem não tem, é atenção.
Não espere uma transformação nem um cérebro novo em oito semanas. Espere, com o tempo, um pouco mais de espaço entre o que acontece e o que você faz com isso. Se a prática te deixar pior, pare e converse com um profissional.