Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Etapa 3

A recusa do chamado: quando o medo paralisa

Etapa 3 da Jornada do Herói: sem documentos em mãos, longe de casa e com medo, Bairo viveu anos na sombra. Como atravessar o medo que paralisa.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Um imigrante jovem, num país que ainda não é inteiramente o seu, diante de uma decisão: sair da empresa que o trouxe e seguir o próprio caminho.

Ele decide sair. E descobre, de uma hora para outra, o que é ficar sem chão. Sem documentos em mãos, longe da família, numa língua que ainda não é a dele.

À noite, o barulho da cidade continua igual. Por dentro, tudo parou. O medo não grita. Ele sussurra: fica quieto, não aparece, espera.

E ele esperou. Por anos.

O que é esta etapa

Na Jornada do Herói, de Joseph Campbell (1949), organizada em doze etapas por Christopher Vogler, a terceira etapa é a recusa do chamado.

Depois de ouvir o chamado, o herói hesita. Recua. Encontra motivos para não ir, ou é empurrado de volta pelas circunstâncias. Campbell observa que quase todos os heróis passam por isso, e Vogler explica por quê: a recusa mostra que o caminho tem um preço real. Se fosse fácil, não seria uma jornada.

A recusa nem sempre é covardia. Muitas vezes é proteção. O medo aparece para guardar a pessoa de um perigo verdadeiro. O problema começa quando o medo, que deveria ser uma pausa, vira endereço.

Na vida de Bairo

O chamado tinha sido atendido: em 2002, Bairo estava no Brasil, num cargo de gerência numa empresa de educação. O sonho de menino tinha se cumprido.

Então ele quis seguir o próprio caminho e sair da empresa. Foi ali que a jornada mudou de tom. Ele ficou sem documentos em mãos, com medo e sem caminho. Nas palavras do relato dele, perdeu-se nas sombras da vida, como tantos imigrantes antes e depois dele.

É um tipo de recusa que não se escolhe. Ninguém decide ficar na sombra. Mas quem está sem chão aprende a não aparecer, a não arriscar, a esperar que alguma coisa mude sozinha. Vieram anos difíceis, sem rumo e sem rede.

Dessa época, Bairo guardou uma frase que costuma repetir: o sol é para todos, mas a sombra, no calor, é para poucos.

A frase tem duas leituras, e as duas são verdadeiras. A primeira é dura: o calor bate em todo mundo, mas o alívio é privilégio. A segunda é a que o fez continuar: se o sol é para todos, também é para ele. Ninguém tinha o direito de decidir que a vida dele ficaria na sombra para sempre.

A recusa voltaria outras vezes na história dele, de formas diferentes. Anos depois, ele teria uma ideia com inteligência artificial e realidade aumentada, ouviria que não daria certo e, mesmo acreditando, desistiria. Mais tarde ainda, a ideia viraria tendência. A lição ficou marcada: o medo dos outros, quando a gente deixa, vira o nosso.

Mas, naquele primeiro momento, o que importava era outra coisa. O garoto que tinha anunciado o Brasil estava no Brasil, sem chão e sem a quem pedir. Seria o lugar natural para desistir.

Ele não desistiu. Levou tempo. E começou de novo pelo único lugar que restava: perto, com a pessoa que estava ao lado.

Na sua vida

A recusa do chamado tem muitas caras, e quase nenhuma delas se apresenta como medo.

Se você é empreendedor e quebrou, ela pode aparecer como "agora não é o momento", "o mercado está ruim", "deixa eu me recuperar primeiro". Se você é imigrante, pode ser o silêncio de quem não quer chamar atenção, a vergonha de pedir ajuda numa língua que ainda não domina, o receio de procurar um órgão público. Se você está recomeçando, pode ser a sensação de que já passou da hora.

Perguntas para olhar o seu medo de frente:

  • Do que, exatamente, você tem medo? Escreva o pior cenário com detalhe. Muitas vezes, no papel, ele encolhe.
  • Esse medo está te protegendo de um perigo real ou só de um desconforto?
  • Há quanto tempo você está esperando que algo mude sozinho?
  • Quem poderia te ajudar, se você tivesse coragem de pedir?

Três passos para esta semana

  1. Separe o perigo real do medo imaginado. Faça duas colunas: o que pode de fato acontecer e o que você só teme. Para a primeira coluna, busque informação concreta. Para a segunda, busque uma conversa.
  2. Peça ajuda a quem é do ofício. Se a sua situação envolve documentos, migração ou trabalho, procure a Defensoria Pública da União, a Polícia Federal, centros de atendimento ao migrante ou organizações de apoio a refugiados e imigrantes. Se o medo virou desespero, ligue para o CVV, no 188, de graça, a qualquer hora.
  3. Dê um passo pequeno o bastante para não dar medo. Um telefonema, um e-mail, um formulário. A sombra não se atravessa de uma vez. Atravessa-se um passo por dia, em direção ao sol.

Hesitar não te tira da jornada. Ficar parado para sempre, sim.

A frase da etapa

"O medo diz 'agora não'. Ele nunca disse 'nunca'."

Frase escrita para esta série, a partir da história de Bairo.

Próxima etapa

Etapa 4: O encontro com o mentor, quem te inspira a continuar

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