Etapa 2
O chamado à aventura: quando a vida pede mais
Etapa 2 da Jornada do Herói: a capoeira como ponte e a chegada de Bairo ao Brasil em 2002. Como reconhecer o chamado na sua vida e dar o primeiro passo.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Uma roda. Gente em volta, batendo palma. O berimbau marca o tempo, o pandeiro responde, alguém puxa um canto em português. No meio, dois corpos se movem sem parar, um perguntando, o outro respondendo.
Para a maioria das pessoas ali, é um treino. Para um jovem colombiano, é outra coisa. É a prova de que o país que ele anuncia desde menino já existe dentro dele, antes de ele pisar lá.
A capoeira foi a ponte. E toda ponte, cedo ou tarde, pede para ser atravessada.
O que é esta etapa
Na Jornada do Herói, descrita por Joseph Campbell em O herói de mil faces (1949) e organizada em doze etapas por Christopher Vogler, a segunda etapa é o chamado à aventura.
É o momento em que algo interrompe o mundo comum. Pode ser uma notícia, um convite, uma perda, um encontro, uma oportunidade que aparece sem aviso. Às vezes o chamado é alto, como uma demissão. Às vezes é baixo, como uma vontade que não vai embora.
O chamado não traz garantias. Ele não diz como vai terminar. Diz apenas que a vida como está não é a vida inteira, e que existe um lugar para onde ir. Vogler lembra que o chamado costuma chegar antes de o herói se sentir pronto. É justamente isso que o torna um chamado, e não um plano.
Na vida de Bairo
O chamado de Bairo teve dois tempos.
O primeiro foi interno: o sonho de morar no Brasil, que ele carregava desde menino. A capoeira deu corpo a esse sonho. A ginga, o movimento que nunca para, ensinou a ele uma coisa que voltaria muitas vezes na vida: na roda, quem para, cai.
O segundo foi concreto. Em 2002, o caminho apareceu. Bairo chegou ao Brasil trazido por uma empresa de educação, e não veio para ocupar um posto qualquer: assumiu um cargo de gerência.
O sonho do menino estava cumprido. O Brasil existia, e ele estava nele.
Repare como o chamado se apresentou. Não foi um presente caído do céu, nem um golpe de sorte isolado. Foi um encontro entre uma certeza antiga e uma porta concreta. A certeza preparou o olho. A porta só precisou aparecer.
É o que Bairo descreve quando diz que não acredita em coincidências, só em propósitos, sonhos e execução. O propósito estava ali desde a infância. O sonho tinha nome de país. Faltava a execução, e ela começou com uma mala e um emprego.
Seria bom dizer que, a partir dali, tudo correu bem. Não correu. A próxima etapa desta jornada conta o medo que veio logo depois. Mas o chamado tinha sido atendido, e nenhuma queda posterior desfaria esse fato: ele foi.
Na sua vida
O chamado raramente chega com fanfarra. Muitas vezes ele se parece com um incômodo.
Se você é empreendedor e quebrou, o chamado pode estar na pergunta que você evita: e se o próximo negócio for diferente de tudo o que eu já fiz? Se você é imigrante, pode ser o motivo original que te fez partir, que a rotina foi apagando. Se você está recomeçando, pode ser a ideia que voltou justo agora, quando parecia que não havia mais espaço para ideias.
Perguntas para identificar o seu chamado:
- O que tem aparecido na sua vida repetidas vezes, em conversas, convites, sinais, sem que você dê atenção?
- Qual porta se abriu recentemente e você fingiu não ver?
- Se você soubesse que não ia dar errado, o que faria nos próximos doze meses?
- Que parte de você o seu dia a dia de hoje não usa?
Três passos para esta semana
- Dê nome ao chamado. Escreva numa frase só: "A vida está me chamando para…". Se vierem três frases, escolha a que dá mais medo e mais vontade ao mesmo tempo.
- Encontre a sua ponte. Bairo teve a capoeira. Qual é a atividade, a comunidade, o curso ou a pessoa que já liga você ao lugar para onde quer ir? Dedique a ela uma hora nesta semana.
- Procure uma porta concreta. Um sonho sem porta vira suspiro. Liste três caminhos reais (uma vaga, um contato, um edital, um cliente) e dê um passo pequeno em um deles.
Atender ao chamado não exige largar tudo amanhã. Exige parar de fingir que ele não chamou.
A frase da etapa
"O chamado não pergunta se você está pronto. Pergunta se você vai."
Frase escrita para esta série, a partir da história de Bairo.
Próxima etapa
Etapa 3: A recusa do chamado, quando o medo paralisa