O guia · Visão
Como me vejo daqui a 5 anos: exercício
Seu eu de daqui a 5 anos parece um estranho? Os estudos de Hal Hershfield sobre continuidade com o eu futuro e uma carta que encurta essa distância.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Para responder "como me vejo daqui a 5 anos" de um jeito que mude alguma coisa hoje, não basta imaginar um cenário bonito. É preciso fazer o caminho inverso: aproximar-se da pessoa que você vai ser. Na prática, isso se faz em três movimentos. Primeiro, você mede o quanto se sente parecido com o seu eu de daqui a cinco anos. Depois, escreve uma carta como se fosse ele, contando o que viveu e o que agradece. Por fim, escolhe uma decisão desta semana que ele aprovaria. Quanto mais real o seu eu futuro parece, mais você tende a cuidar dele.
Por que funciona
O psicólogo Hal Hershfield, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, estuda há mais de quinze anos o que ele chama de continuidade com o eu futuro. A ideia central é estranha e muito humana: para muita gente, o próprio eu de daqui a dez anos é sentido quase como um desconhecido. E ninguém se sacrifica com gosto por um desconhecido. Em estudos de imagem cerebral, pensar no próprio eu futuro chegou a produzir padrões mais parecidos com os de pensar em outra pessoa do que em si mesmo agora. (Hershfield, Annals of the New York Academy of Sciences, 2011)
Quando essa distância diminui, o comportamento muda. Em 2011, Hershfield e colegas mostraram a voluntários imagens de si mesmos envelhecidos por computador. Quem viu o próprio rosto mais velho passou a reservar uma parte maior de uma renda hipotética para a aposentadoria do que quem viu só a imagem atual. (Hershfield e colegas, Journal of Marketing Research, 2011)
E não é preciso tecnologia. Em 2013, Jean-Louis van Gelder, Hershfield e Loran Nordgren pediram a um grupo de pessoas que escrevesse uma carta para o próprio eu futuro. Comparadas a um grupo de controle, essas pessoas se mostraram menos inclinadas a escolher atalhos ilícitos em situações hipotéticas. (van Gelder, Hershfield e Nordgren, Psychological Science, 2013)
Vale a honestidade: são efeitos medidos em laboratório, em decisões específicas, e não uma garantia de mudança de vida. Mas a direção é consistente: quem se sente ligado ao próprio futuro tende a tratá-lo melhor.
O exercício
Tempo: 40 minutos. Material: papel, caneta e um envelope.
- Meça a distância (3 minutos). Desenhe sete pares de círculos, do par totalmente separado ao par quase sobreposto. Um círculo é você hoje; o outro, você daqui a cinco anos. Marque o par que melhor mostra o quanto vocês se parecem. Hershfield usa uma escala parecida nos estudos dele. Anote o número de 1 a 7.
- Calcule a idade (1 minuto). Escreva a data exata de daqui a cinco anos e a idade que você terá. Escreva também a idade das pessoas que você ama.
- Descreva um dia comum (10 minutos). Não o dia mais feliz: uma terça-feira qualquer. Use as frases que se repetiram no exercício da melhor versão de você. Perguntas prontas:
- Onde eu moro, e como é o caminho até o trabalho?
- Que habilidade eu tenho que hoje ainda não tenho?
- Que hábito eu mantive todos esses anos?
- Que preocupação de hoje eu já nem lembro?
- Que preocupação nova existe, porque toda vida tem alguma?
- Escreva a carta do futuro (15 minutos). Agora troque de lugar. Escreva como o seu eu de daqui a cinco anos, endereçada a você de hoje. Ele conta o que viveu, o que foi difícil e o que agradece. Comece com: "Querido eu de hoje, obrigado por…". Inclua pelo menos uma frase sobre uma decisão que você ainda vai tomar nesta semana.
- Escolha a decisão (5 minutos). Escreva uma decisão concreta para os próximos sete dias que o seu eu futuro agradeceria: começar a guardar uma quantia pequena, marcar um exame, inscrever-se num curso, ter uma conversa adiada.
- Feche o envelope (3 minutos). Coloque a carta no envelope e escreva por fora a data de daqui a seis meses. Marque esse dia na agenda.
- Meça de novo (3 minutos). Refaça os círculos. Se eles chegaram um pouco mais perto, o exercício fez o que devia.
Na voz de Bairo
O capítulo que abre a história de Bairo começa com uma frase sobre o futuro. Em 1º de outubro de 1971, o Walt Disney World abriu as portas sem o homem que o tinha sonhado, que havia morrido em 1966. Conta-se que alguém lamentou que Walt não tivesse visto o parque, e que Mike Vance, então diretor de criação dos estúdios, respondeu: "Ele viu. Por isso está aqui." A história está em Cinquenta e cinco anos depois.
Ele gosta de dizer que, no mundo quântico, nada está decidido antes da hora, e usa essa linguagem para falar desse "ver antes". Aqui ela entra como metáfora. A imagem que ele escolhe vem do espaço. As placas das sondas Pioneer 10 e 11, lançadas em 1972 e 1973, levam um desenho para quem talvez as encontre daqui a milhões de anos, e usam o hidrogênio como régua: a altura da mulher desenhada é dada em múltiplos de 21 cm. É, literalmente, uma carta para um leitor que ainda não existe. Isso é fato. A visão de Bairo é que a carta do passo 4 é a sua placa da Pioneer, só que no sentido contrário: uma mensagem que o seu futuro manda ao seu presente, usando como régua aquilo que não muda em você.
Ele conta que viveu assim: viu a versão mais próspera dele antes de ela existir e passou a trabalhar, em silêncio, para alcançá-la. É a experiência dele, e não uma promessa a ninguém.
Cuidados
Pensar em cinco anos pode ser angustiante para quem vive uma doença séria, uma dívida que parece sem saída ou um luto recente. Se for o seu caso, encurte o horizonte para seis meses ou um ano, e escreva a carta de uma versão um pouco mais tranquila, e não de uma vida perfeita. Se pensar no futuro trouxer a sensação de que não há futuro, isso é um sinal para procurar ajuda agora, com um psicólogo ou um médico. O CVV atende de graça, 24 horas, no 188.