O guia · Paixão
Como descobrir o que você ama fazer
A paixão quase nunca vem pronta: ela se desenvolve. Um diário de energia de 7 dias, três testes pequenos e o ikigai como os japoneses o entendem.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Para descobrir o que você ama fazer, observe mais do que pense. Durante uma semana, anote o que você fez e se aquilo deu ou tirou energia. Depois, escolha três atividades que deram energia e faça cada uma de novo, de propósito, em versão pequena. A pesquisa sugere que a paixão raramente aparece pronta, como um raio. Ela costuma crescer com a prática, com a competência e com o sentido que a atividade ganha na vida dos outros. Por isso, a pergunta mais útil não é "qual é a minha paixão?", e sim "o que me dá vontade de continuar, mesmo quando fica difícil?".
Por que funciona
Em 2018, Paul O'Keefe, Carol Dweck e Gregory Walton, de Yale-NUS e de Stanford, publicaram cinco estudos sobre o que chamaram de teorias implícitas de interesse. Pessoas que acreditavam que a paixão é algo fixo, que só precisa ser encontrado, se interessavam menos por assuntos fora da sua área e desistiam mais rápido quando o assunto ficava difícil. Quem acreditava que interesses se desenvolvem se mantinha aberto por mais tempo. (O'Keefe, Dweck e Walton, Psychological Science, 2018) Em outras palavras, o conselho de "encontrar a sua paixão" pode atrapalhar quem o segue ao pé da letra.
E há o ikigai, que merece cuidado. Em japonês, ikigai quer dizer algo como "aquilo que faz a vida valer a pena". A psiquiatra Mieko Kamiya escreveu sobre o tema em 1966, e no Japão a palavra costuma se referir a coisas do dia a dia: cuidar dos netos, um jardim, um ofício, um grupo de amigos. Num grande estudo de 2008, com mais de 40 mil adultos da cidade de Ohsaki, quem respondia não ter ikigai teve maior risco de morte nos sete anos seguintes, sobretudo por doença cardiovascular. (Sone e colegas, Psychosomatic Medicine, 2008) É uma associação, não prova de causa, mas mostra que ter algo pelo que levantar importa.
O diagrama popular de quatro círculos ("o que você ama, o que faz bem, o que o mundo precisa, pelo que pode ser pago") não é japonês. Ele vem de um diagrama sobre propósito criado pelo espanhol Andrés Zuzunaga e foi rebatizado de ikigai num texto de blog de Marc Winn, em 2014, como o próprio Winn conta. (Marc Winn) Ele pode ajudar a pensar carreira, mas exige que tudo caiba no mesmo ponto, inclusive o dinheiro, e isso deixa muita gente achando que não tem ikigai nenhum.
O exercício
Tempo: 7 dias de anotações de 5 minutos, 30 minutos de análise e duas semanas de testes. Material: caderno ou notas no celular.
- Faça o diário de energia (7 dias, 5 minutos por noite). Anote as principais atividades do dia e, ao lado, um sinal: "+" se deu energia, "−" se tirou, "=" se foi neutra. Anote também se o tempo voou ou se arrastou.
- Lembre a infância (10 minutos). Escreva o que você fazia, entre os 8 e os 14 anos, sem ninguém mandar. Do que brincava, o que desmontava, sobre o que perguntava.
- Procure o que se repete (10 minutos). Junte o diário e a lista da infância. Perguntas prontas:
- Em que atividades eu perco a noção do tempo?
- O que eu faço de graça, e ainda faria se ninguém visse?
- Sobre que assunto as pessoas me procuram para pedir ajuda?
- Que problema do mundo me irrita a ponto de eu querer consertar?
- Que tarefa difícil eu continuo fazendo, mesmo quando poderia parar?
- Escolha três candidatos (5 minutos). Três atividades que apareceram mais de uma vez. Não precisam virar profissão.
- Desenhe três testes pequenos (5 minutos). Uma versão de cada que caiba em duas a quatro horas: uma aula, um trabalho voluntário, um projeto de fim de semana, uma conversa com alguém que vive disso.
- Faça os testes em duas semanas. Depois de cada um, anote a energia (+, −, =) e uma frase: "o que eu quero fazer de novo é…".
- Só agora, olhe os quatro círculos (opcional, 10 minutos). Se quiser pensar em trabalho, use o diagrama de propósito como uma ferramenta de conversa, e não como teste de aprovação. A pergunta japonesa continua sendo a mais importante: o que faz os meus dias valerem a pena?
Na voz de Bairo
Bairo conta que, desde menino, na Colômbia, dizia que um dia moraria no Brasil, e que a ponte foi a capoeira: a primeira coisa do Brasil que ele aprendeu com o corpo, antes da língua. Ninguém descobre uma paixão assim pensando. Descobre jogando na roda. A história está em A capoeira foi a ponte.
Ele gosta de dizer que entende o mundo como quântico, e a física dá aqui uma imagem bonita. Cada elemento químico, quando emite ou absorve luz, deixa uma assinatura própria de cores, as linhas do seu espectro. É assim que os astrônomos sabem do que são feitas estrelas que nunca vão visitar. O hidrogênio tem a sua, e uma delas é a linha de 1420 MHz. Isso é física. A visão de Bairo é a metáfora: aquilo que você ama fazer tem uma assinatura, e ela aparece no diário de energia, nas horas que voam e nas tarefas difíceis que você não larga. Não é algo que se encontra no fundo de uma gaveta. É algo que se lê, com atenção, na própria vida.
Cuidados
Às vezes, nada dá energia. Se as duas semanas do diário vierem cheias de sinais de "−", se nada parecer ter graça e isso já durar semanas, isso pode ser um sinal de esgotamento ou de depressão, e não falta de paixão. Nesse caso, o passo certo é conversar com um médico ou um psicólogo. Se houver desespero, o CVV atende de graça, 24 horas, no 188.