O futuro
Uma vida para ensinar, um espaço para completar a jornada
Bairo Gonzalez vê a própria vida como lição em andamento e imagina um espaço onde cada pessoa possa terminar a jornada que começou.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
Algumas vidas servem para ser vividas. Outras, além disso, servem para ser contadas, porque quem vem depois precisa saber que era possível.
A vida como aula
Bairo Leandro Gonzalez Martinez resume o que quer deixar em duas frases: uma vida para ensinar e um espaço para completar a jornada.
A primeira fala dele. Ele não conta a própria história porque ela foi fácil, mas porque foi difícil. O menino colombiano que sonhava com o Brasil e chegou pela ponte da capoeira. O jovem que ficou sem documentos em mãos ao deixar a empresa que o trouxe. O pai que abriu um salão, criou um curso, lançou uma marca de cosméticos, tentou a tecnologia cedo demais. O empresário que quebrou mais de uma vez e, como ele conta, se viu com cinquenta vidas dependendo dele. O homem que, na sétima tentativa, construiu um ecossistema.
Cada queda virou matéria de aula. Antes mesmo de fundar empresas de tecnologia, conta ele, já formava profissionais na área comercial. Ensinar, para ele, nunca foi um capítulo da vida. Sempre foi o fio.
O que os psicólogos chamam de generatividade
O psicanalista Erik Erikson descreveu as fases da vida humana como uma sequência de desafios. Na idade adulta, o desafio central, segundo ele, é a generatividade: a vontade de cuidar da próxima geração, de deixar algo que continue depois de nós. Quem não encontra esse caminho, escreveu Erikson, corre o risco da estagnação.
Bairo encontrou o caminho do jeito dele. Quer que as empresas que fundou sejam lições vivas, e que a história que viveu seja um mapa para quem está perdido. Por isso o site que leva o nome dele tem páginas sobre o que fazer quando você faliu, como enfrentar um despejo, como recomeçar. Não são conselhos de quem leu sobre isso. Muitas são perguntas que ele mesmo já fez em voz baixa, numa madrugada.
Um espaço para completar a jornada
A segunda frase fala dos outros. Bairo acredita que cada pessoa começa uma jornada, e que muitas param no meio. Não por falta de talento, mas por falta de espaço: de tempo, de apoio, de alguém que diga "continue".
Ele imagina o ecossistema como esse espaço. Um lugar onde o feirante consegue crédito para terminar a câmara fria que começou. Onde o paciente encontra a segunda opinião que faltava para decidir. Onde o empresário quebrado encontra uma mesa de pessoas que já quebraram e levantaram. Onde a criança da geração beta encontra adultos dispostos a ensinar o que nenhuma máquina ensina.
E imagina a inteligência artificial como parte desse espaço: uma companheira paciente de estudo, disponível às três da manhã, que nunca se cansa de explicar de novo. Não para substituir o professor, mas para que ninguém fique parado no meio do caminho por falta de quem responda.
No futuro que ele descreve
Ele imagina, daqui a algumas décadas, que alguém encontre a história dele num dia ruim e decida não desistir. Isso basta para ele. Não quer ser lembrado como o homem que fundou empresas, mas como alguém cuja vida serviu para que outra pessoa completasse a sua.
E imagina que essa corrente continue. Quem foi ajudado ajuda. Quem completou a jornada volta para abrir espaço para quem está começando. Como na capoeira, em que a roda só existe porque alguém sempre entra quando outro sai.
Conta-se que, quando alguém lamentou que Walt Disney não tivesse visto o parque pronto, a resposta foi: ele viu, e por isso está aqui. Bairo gosta dessa frase porque fala de alguém que enxergou o fim antes do meio. Ele também diz que viu. E passa a vida construindo o caminho até lá, para que outros possam percorrê-lo.
Uma cena
Numa roda de capoeira, num sábado de manhã, um mestre de cabelo grisalho observa um menino de doze anos errar a mesma ginga pela quinta vez. Não diz nada. Entra na roda, faz o movimento devagar, sorri e sai. O menino tenta de novo. Acerta.
Ninguém aplaude. O mestre já voltou ao berimbau. Mas, naquele instante, uma vida ensinou outra, e um espaço se abriu para que a jornada do menino continuasse.