Bairo GonzalezLeandro · Martinez

O futuro

Triagem: o futuro da primeira escuta

A visão de Bairo Gonzalez para o sistema de triagem: um assistente clínico que escuta antes, acompanha todo dia e chama um profissional quando precisa.

A primeira pergunta de um atendimento costuma ser a mais apressada. E é dela que depende todo o resto.

Hoje

O sistema de triagem é uma pré-consulta com assistente clínico e validação humana. Ele coleta informação antes do atendimento, acompanha a saúde da pessoa pelo histórico do dia a dia com apoio de agentes de inteligência artificial e, quando é preciso, agenda uma teleconsulta com médico ou enfermeiro, que valida o que o assistente organizou. O assistente não diagnostica e não decide: prepara a conversa para que o profissional decida melhor.

Bairo conta que o sistema foi desenhado para o Hospital Granja Julieta, em São Paulo, empresa distinta, com CNPJ e quadro societário próprios. A marca internacional do sistema é Hospital Triage; o domínio hospitaltriage.ai está registrado e ainda não tem nada publicado. Triagem não é pronto-socorro: em emergência, o caminho é o serviço de urgência da sua cidade (no Brasil, SAMU 192).

A dor que ele viu

Quem já esperou numa recepção de hospital sabe o que é contar a mesma história três vezes: para a recepcionista, para a enfermeira, para o médico. Cada vez um pouco mais cansado, um pouco mais resumido, um pouco menos exato. O detalhe que importava se perde na segunda versão.

Bairo viu isso de perto, como pai, como imigrante, como homem que já esteve no fundo e conheceu o cansaço de não ser ouvido. E entendeu uma coisa simples: o problema muitas vezes não é falta de conhecimento médico. É falta de tempo para escutar. O profissional que atende quarenta pessoas por dia não tem como lembrar o que a quadragésima pessoa disse na semana passada.

A OMS projeta um déficit de cerca de 11 milhões de profissionais de saúde até 2030, mais da metade na enfermagem. Na visão de Bairo, se faltam mãos, que pelo menos não falte escuta.

O futuro que ele vê

2030. Ele imagina a triagem começando em casa. A pessoa conta ao assistente clínico, no próprio ritmo e no próprio idioma, o que está sentindo. O assistente organiza a história, pergunta o que falta, registra o que mudou desde ontem. Quando a pessoa chega ao profissional, ele já tem diante de si um resumo claro, com a fala original guardada. E só ele decide o que aquilo significa.

2040. No futuro que Bairo descreve, o acompanhamento é contínuo. Para quem convive com uma condição crônica, o assistente pergunta todo dia como foi a noite, se o remédio foi tomado, se a dor mudou de lugar. Quando um padrão foge do esperado, ele não dá diagnóstico: chama um enfermeiro. Bairo imagina hospitais em que a maior parte do trabalho deixa de ser apagar incêndio para ser evitar que o fogo comece.

2050. No horizonte longo, ele vê a triagem como uma porta que nunca fecha, disponível em qualquer língua e em qualquer lugar onde haja um telefone. Uma rede de escuta que ajuda os profissionais a chegarem antes. A tecnologia faz o que faz bem, lembrar e organizar, e as pessoas fazem o que só pessoas fazem: olhar nos olhos, examinar, assumir a responsabilidade.

Ele imagina. Não promete. Saúde é o lugar onde a palavra "promessa" mais machuca, e ele sabe disso.

O que isso muda na vida de uma pessoa

Imagine Marta, que cuida sozinha do pai, de oitenta e quatro anos, que esquece as coisas. Toda vez que ele piora, ela tenta lembrar quando começou, o que ele comeu, se dormiu. Nunca lembra direito. Chega ao atendimento com o coração disparado e as respostas pela metade.

No futuro que Bairo imagina, há três meses Marta conversa todo dia, à noite, com o assistente clínico. Dois minutos. Como foi o dia, como ele comeu, se ficou confuso. Numa quinta-feira, o assistente percebe que as noites ruins se repetem e sugere uma teleconsulta. Do outro lado, uma enfermeira lê o histórico, faz as perguntas certas e orienta o próximo passo.

Marta desliga o telefone e chora. Não de medo. De alívio. Pela primeira vez em muito tempo, ela não precisou carregar sozinha a memória de tudo.

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