O guia · Passado
Linha da vida: como mapear seu passado
Uma folha, uma linha e as flores e pedras da sua história. Como desenhar a linha da vida e descobrir o que cada queda deixou na sua mão.
Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em
A linha da vida é um desenho simples: uma linha horizontal que vai do seu nascimento até hoje, com os momentos bons acima dela e os difíceis abaixo. Leva uma hora para fazer e costuma mostrar coisas que anos de memória solta não mostram: as fases da sua história, os pontos de virada, e principalmente o que cada queda deixou de aprendizado. O objetivo não é reviver o passado. É lê-lo como um mapa, para que ele deixe de ser uma sentença.
Quem nunca olha para trás com calma corre dois riscos opostos: repetir sem perceber, ou carregar tudo como se nada tivesse servido.
Por que funciona
A psicologia chama de identidade narrativa a história que cada pessoa conta para si sobre quem é, como chegou até aqui e para onde vai. O psicólogo Dan McAdams, da Universidade Northwestern, e a pesquisadora Kate McLean resumiram em 2013 duas décadas de estudos sobre essas histórias. Um dos achados mais consistentes é sobre as sequências de redenção: trechos em que uma cena claramente ruim leva a algo claramente bom, como uma perda que trouxe um aprendizado. Pessoas que contam a própria vida com mais sequências assim relatam, em média, mais bem-estar. (McAdams e McLean, Current Directions in Psychological Science, 2013)
É importante entender o que isso não quer dizer. Não quer dizer fingir que o ruim foi bom. Quer dizer procurar, com honestidade, o que veio depois.
A linha com flores e pedras não foi inventada para este guia. Ela é usada na Terapia de Exposição Narrativa, criada por Maggie Schauer, Frank Neuner e Thomas Elbert para tratar pessoas que atravessaram guerras e violências graves. Na terapia, a pessoa estende uma corda e coloca flores nos momentos bons e pedras nos difíceis, em ordem. Há boa evidência para esse tratamento, sempre conduzido por profissional. (Jongedijk, European Journal of Psychotraumatology, 2014) Aqui você vai usar uma versão leve da mesma ideia, para o dia a dia, e não para traumas graves.
O exercício
Tempo: 60 minutos para desenhar, mais 20 minutos dois dias depois para reler. Material: uma folha grande na horizontal (ou duas coladas), lápis e duas cores de caneta.
- Trace a linha (2 minutos). Uma linha reta no meio da folha, da esquerda para a direita. Na ponta esquerda, o ano em que você nasceu. Na direita, o ano de hoje. Marque os anos ou as idades a cada cinco anos.
- Coloque as flores (15 minutos). Acima da linha, marque os momentos bons: conquistas, encontros, lugares, decisões de que você se orgulha. Quanto mais importante, mais alto. Escreva duas ou três palavras para cada um.
- Coloque as pedras (15 minutos). Abaixo da linha, marque os momentos difíceis: perdas, fracassos, mudanças forçadas, rupturas. Quanto mais pesado, mais baixo. Se uma lembrança for pesada demais para olhar agora, marque só um ponto, sem palavra, e siga em frente.
- Ligue os pontos (5 minutos). Una as marcas com uma linha que sobe e desce. Você vai ver uma onda.
- Dê nome às fases (8 minutos). Separe a sua vida em quatro a sete capítulos e dê um título a cada um, como num livro: "Os anos da chegada", "O tempo da fábrica", "Recomeço".
- Procure o que cada pedra deixou (15 minutos). Ao lado de cada ponto baixo, escreva com a outra cor uma resposta curta para estas perguntas:
- O que eu aprendi aqui que não aprenderia de outro jeito?
- Que pessoa, habilidade ou decisão nasceu depois disso?
- O que eu faria diferente hoje, sabendo o que sei?
- Releia depois de dois dias (20 minutos). Responda por escrito:
- Em que fase eu fui mais eu mesmo, e o que havia nela?
- Que padrão se repete antes das minhas quedas?
- Se esta linha fosse o começo de um livro, qual seria o título do próximo capítulo?
A segunda pergunta é a ponte para o próximo exercício, como encontrar padrões nos seus erros.
Na voz de Bairo
A história de Bairo, contada no site, é uma linha da vida com muitas pedras: a chegada ao Brasil em 2002 e o tempo sem chão, o salão aberto quando a filha nasceu, a ideia de inteligência artificial que chegou cedo demais, os sócios que o tiraram do negócio, a falência com cinquenta pessoas dependendo dele. Ele mesmo diz que não sabe quantas vezes tentou. Escolheu um número para contar a história: a sétima tentativa, a que deu certo.
O inventário que ele faz dessas quedas é o passo 6 deste exercício. O curso deixou método. A ideia que chegou cedo deixou o olho para o futuro. A marca de cosméticos deixou a prova de que ele sabia criar do nada. Os sócios deixaram a lição sobre com quem construir. Na leitura dele, a tentativa que deu certo carregava as outras dentro dela. A história está em A sétima tentativa.
Ele gosta de dizer que não existem coincidências nem casualidades, só propósitos, sonhos e execução. E há uma imagem da ciência que ele usa como metáfora. Na década de 1950, os astrônomos usaram uma única linha, a linha de 21 cm do hidrogênio, para desenhar pela primeira vez os braços da nossa galáxia, que a poeira escondia da luz comum. Uma linha só, lida com paciência, revelou a forma do todo. Isso é física. A visão dele é que a sua linha da vida também pode mostrar uma forma que, vivendo um dia de cada vez, você não conseguia enxergar.
Cuidados
Este exercício é para olhar a vida de longe, não para mergulhar em traumas. Se, ao marcar uma pedra, vierem lembranças intensas, imagens que voltam sem você querer, aperto no peito ou vontade de sumir, pare. Pedras desse peso merecem ser olhadas com um psicólogo, de preferência com formação em trauma, e não sozinho numa folha. Se houver desespero, ligue agora para o CVV, de graça e 24 horas, no 188.