Fome · ficção
O que fazer com a comida que sobra
Conto de uma madrugada numa central de abastecimento, onde um carregador vê toneladas de tomate irem para o lixo e, ao mesmo tempo, a fome.
Uma visão — conto.
A central de abastecimento acorda às duas da manhã, quando o resto da cidade ainda está no sono mais fundo.
Os caminhões chegam de todas as direções, com os faróis acesos, carregados de tudo o que a terra deu naquela semana. Tomate, alface, banana, mandioca, laranja, abóbora. Os carregadores descem as caixas nas costas, em fila, como formigas debaixo de folhas. Os comerciantes gritam preços. O cheiro é de terra molhada, de fruta madura, de diesel e de café passado em garrafa térmica.
O carregador tinha cinquenta e três anos e trabalhava ali havia trinta. Conhecia cada pavilhão pelo cheiro.
Naquela madrugada, ele estava empurrando o carrinho vazio de volta quando viu a caçamba.
Era uma caçamba de entulho, enorme, no fim do pavilhão. Estava cheia até a boca de tomates. Tomates bons. Alguns um pouco amassados, outros com uma mancha, a maioria perfeita, vermelha, brilhando sob a luz branca das lâmpadas. Tinham sobrado. Não tinham sido vendidos a tempo. O comerciante preferia jogar fora a baixar o preço, porque baixar o preço estragava o preço da semana seguinte.
Ele já tinha visto aquilo mil vezes. Mas, naquela madrugada, parou.
Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a luz. Talvez fosse o fato de que, naquela tarde, ele tinha visto na televisão a fila de gente esperando osso num açougue. Ele parou em frente à caçamba e teve uma visão.
Viu os tomates voltando para trás no tempo. Saindo da caçamba, subindo de volta para as caixas, de volta para o caminhão, de volta pela estrada, de volta para a roça. Viu o agricultor que os tinha plantado, um homem de chapéu de palha, ajoelhado na terra, colocando cada muda com a mão. Viu a chuva caindo na plantação. Viu o sol amadurecendo cada fruto, um por um, durante meses. Viu todo o trabalho, todo o tempo de vida de gente e de planta, que cabia dentro de um tomate.
E depois viu os tomates indo para a frente. Não para o lixo. Para outros lugares. Para panelas de escolas onde, para muitas crianças, era a refeição mais certa do dia. Para cozinhas de abrigos. Para potes fechados, cozidos, que duravam meses numa prateleira e chegavam, inteiros, a lugares onde não havia geladeira nenhuma.
Viu, no mundo inteiro, o mesmo desenho. De um lado, montanhas de comida jogada fora. Do outro, filas de gente com fome. E entre um e outro, nada. Um espaço vazio, que ninguém atravessava.
O espaço não era de distância. Era de decisão.
Quando a visão terminou, o carregador estava parado com o carrinho vazio na mão, e um colega gritava o nome dele.
Ele não respondeu. Foi até o comerciante dono da caçamba.
— Senhor, esses tomates aí vão para o lixo?
— Vão. Por quê?
— Se eu trouxer um carro amanhã, posso levar?
O comerciante olhou para ele como se ele fosse louco. Depois deu de ombros.
— Se você levar, me poupa o frete do lixo.
Na madrugada seguinte, ele voltou com a caminhonete velha do cunhado. Levou os tomates para uma igreja do bairro dele, onde uma senhora fazia sopa às sextas-feiras. Na outra semana, levou alface. Na outra, banana. Na outra, um segundo carregador foi com ele.
Não mudou o mundo. Mudou uma sexta-feira. Depois outra.
Às duas da manhã, a central continua a acordar, os caminhões continuam a chegar, e muita comida ainda vai para a caçamba. Mas agora há um carrinho que passa por ela antes do lixo.
Bairo conta que, junto com o que construiu, veio a frente humanitária do Instituto CEASA, cuja proposta é ampliar o acesso a alimento a partir do excedente das centrais de abastecimento. Leia: Um corpo inteiro.
O caminho
Entre a comida que sobra e a fome que falta há, quase sempre, uma decisão que ninguém tomou. Pergunte para onde vai o excedente perto de você, no mercado, na feira, no restaurante. Um carrinho que passa antes do lixo já é uma ponte.