Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Imigração · ficção

O fio que ninguém retém

Conto em forma de prece: uma mãe imigrante, sem os documentos em mãos, lembra a avó que tecia contando os fios de cabeça.

Uma visão — conto.

Para quem estiver ouvindo, seja Deus, seja o silêncio, seja só a parede deste quarto:

Eu vim de longe. Vim das montanhas onde o ar é fino e a gente aprende cedo a respirar devagar. Atravessei uma fronteira de ônibus, com uma sacola de pano, uma foto da minha mãe e uma promessa de trabalho que um homem me fez num papel sem carimbo.

O trabalho existia. O resto não.

No terceiro mês, o homem pediu meus documentos para, disse ele, regularizar a minha situação. Eu entreguei. E nunca mais vi o meu nome escrito em papel nenhum.

Desde então, eu ando pela cidade como quem anda dentro de um sonho ruim. Tenho medo do policial na esquina, do porteiro do prédio, do homem do ônibus que olha demais. Tenho medo de ficar doente e não poder ir ao posto. Tenho medo de que um dia batam na porta e levem a minha filha, que nasceu aqui e tem todos os papéis que eu não tenho.

Ela tem quatro anos. Ontem me perguntou por que eu falo tão baixo na rua.

Eu não soube responder.

Esta noite, enquanto ela dormia, eu tive uma visão. Não sei se foi sonho. Vi a minha avó, que nunca saiu da aldeia, tecendo um poncho de lã de lhama. Ela não usava molde. Contava os fios de cabeça, um, dois, três, e dizia que cada fio que a gente esquece desfaz o desenho inteiro. Vi a minha mãe, que veio para a cidade grande do meu país e limpou casas por trinta anos, sem nunca ter um papel assinado também. Vi uma fila de mulheres da minha família, cada uma numa época, cada uma longe de onde nasceu, cada uma sem papel nenhum que dissesse quem ela era.

E nenhuma delas deixou de existir por isso.

Entendi, na visão, que o documento diz onde eu estou. Não diz quem eu sou. O homem levou o papel. Não levou o fio que a minha avó contava de cabeça, nem a respiração devagar das montanhas, nem as trinta faxinas da minha mãe que eu carrego nas costas, nem a canção que eu canto baixinho para a minha filha dormir.

Isso ninguém retém.

Depois a visão andou para a frente. Vi minha filha grande, numa sala cheia de gente, falando alto. Falando alto numa língua que é dela e é minha, sem medo de policial nenhum. Vi que ela contava a minha história para outras pessoas, e que as pessoas ouviam com o respeito que se dá às coisas difíceis.

Eu não sei se isso vai acontecer. Não peço que me garantam. Peço só coragem para o dia de amanhã.

Amanhã, eu vou fazer o que tenho medo de fazer. Vou procurar ajuda. Uma vizinha me disse que existe um lugar onde advogados do governo atendem de graça quem não pode pagar, até quem não tem papel. Ela disse também que, aqui, prender o documento de quem trabalha é crime, e que a culpa não é minha.

A culpa não é minha.

Vou repetir isso até acreditar.

Para quem estiver ouvindo: obrigada pela noite. Obrigada pela minha filha respirando ao meu lado. Obrigada pela avó que contava os fios.

Amanhã eu falo um pouco mais alto.

Bairo conta que também ficou sem documentos em mãos, longe de casa e com medo, e que levou tempo para se reerguer. Leia: A capoeira foi a ponte.

O caminho

O documento diz onde você está, não quem você é. No Brasil, a Defensoria Pública da União atende migrantes gratuitamente, e reter documento de trabalhador é crime de quem retém, não culpa sua. Procurar ajuda é o ato de coragem mais concreto que existe.

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