Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Geração Alpha · ficção

Crianças e telas: como educar

Conto em diálogo entre uma mãe e um filho de oito anos que pergunta tudo à inteligência artificial, até a noite em que pergunta uma coisa só a ela.

Uma visão — conto.

— Mãe, a IA disse que a lua está se afastando da Terra quatro centímetros por ano.

— Ah, é?

— É. Você sabia?

— Não sabia.

O menino tinha oito anos e uma fome de perguntas que não cabia em nenhum adulto. Por isso perguntava à máquina. A mãe, que trabalhava o dia todo como técnica de enfermagem num hospital da periferia, chegava em casa às sete e meia da noite com os pés latejando, e ele já tinha perguntado duzentas coisas. Por que os gatos ronronam. Quanto pesa uma nuvem. Se os dinossauros tinham medo. A máquina respondia tudo, sempre paciente, sempre certa.

A mãe sentia, ao mesmo tempo, alívio e uma pontada de ciúme.

— Mãe, por que você não sabe as coisas?

Ela parou de mexer o arroz.

— Eu sei algumas coisas.

— Mas a IA sabe mais.

— Sabe.

Ele voltou para a tela, satisfeito. Ela ficou parada na frente do fogão, com a colher no ar, sentindo-se pequena dentro da própria cozinha.

Naquela noite, depois que ele dormiu, ela ficou sentada na beira da cama dele, olhando. E teve uma visão, do jeito que as mães cansadas às vezes têm, entre o sono e a vigília.

Viu a própria mãe, numa cidade do interior, analfabeta, criando sete filhos. A mãe não sabia ler as lições da escola. Não sabia responder por que a lua mudava de forma. Mas sabia quando um filho estava com febre só de olhar. Sabia quando um filho estava mentindo pelo jeito de mexer o pé. Sabia acordar às quatro da manhã para fazer café e ainda assim cantar.

Viu que a mãe dela também tinha se sentido pequena, às vezes, diante dos filhos que aprendiam na escola coisas que ela nunca aprenderia. E viu que nenhum dos sete tinha lembrado disso. O que todos lembravam era a febre, o pé, o café, a música.

Depois viu o filho dela, grande, homem, numa época que ela não sabia qual. Ele estava sozinho numa sala cheia de telas, triste por alguma coisa. Nenhuma das telas sabia disso. E ele pegava o telefone e ligava para alguém. Ela não via para quem. Mas sabia.

Acordou com o menino puxando a manga dela.

— Mãe. Tive um pesadelo.

Ela o deitou de novo e se deitou ao lado, na cama estreita.

— Quer que eu pergunte para a IA o que significa? — disse ele, já procurando o aparelho.

— Não. Me conta.

Ele contou. Era um sonho com um cachorro enorme que corria atrás dele. Ela ouviu tudo, sem interromper. Depois disse:

— Sabe o que eu acho? Acho que o cachorro só queria brincar.

O menino ficou pensando.

— A IA ia saber explicar melhor.

— Ia. Mas ela ia estar aqui agora?

Ele não respondeu. Se aconchegou no braço dela e fechou os olhos.

— Mãe.

— Hum.

— Você sabe uma coisa que a IA não sabe.

— O quê?

— Que eu estava com medo.

Ela não disse nada. Ficou ali até ele dormir, e um pouco mais.

No dia seguinte, combinaram uma regra nova: depois do jantar, uma pergunta para a máquina e uma pergunta para a mãe. A dele, para ela, foi: "Como era a vovó?".

Ela levou uma hora para responder.

Quem convive com Bairo o descreve como alguém que vê pessoas humanas antes de ver cargos, histórico ou conta bancária. Leia: Um nome, quatro presenças.

O caminho

A máquina responde perguntas; a mãe e o pai respondem a criança. Não dispute informação com a tela: ofereça presença, que ela não tem. Combine em casa um tempo sem tela e uma pergunta só para vocês, todos os dias.

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