Bairo GonzalezLeandro · Martinez

Recomeço · ficção

Como recomeçar aos cinquenta anos

Conto em diálogo entre uma costureira de cinquenta e dois anos e a filha, na noite em que ela decide voltar a estudar. Para quem acha que já é tarde.

Equipe bairogonzalez.com, a partir da história de Bairo · Publicado em

Uma visão — conto.

— Mãe, a senhora tem cinquenta e dois anos.

— Eu sei quantos anos tenho, filha. Fui eu que vivi todos eles.

Era uma cozinha pequena numa cidade do norte de Portugal, com azulejo azul até a metade da parede e um rádio que só pegava uma estação. A mãe tinha passado trinta anos costurando para fora. Bainhas, vestidos de noiva, fardas de escola. O ateliê fechou num inverno em que as pessoas deixaram de mandar consertar roupa e passaram a comprar roupa nova, mais barata que o conserto.

— E quer estudar o quê, afinal?

— Ainda não sei. Quero aprender a fazer o que as máquinas não fazem.

— Mas, mãe, as máquinas fazem quase tudo.

A mãe pôs a chávena de café em cima da mesa e olhou para a filha como olhava para um tecido antes de cortar.

— Quando eu tinha oito anos, a tua avó deu-me uma agulha. Disse: isto aqui é para remendar. Eu passei a vida a remendar. Calças, saias, cortinas, o casamento dos outros, que às vezes chegava aqui rasgado e eu tinha de apertar na cintura para a noiva caber.

— E?

— E eu reparei que as pessoas não vinham só pela roupa. Vinham para conversar. Ficavam na prova meia hora, a contar a vida. A máquina não faz isso. A máquina não sabe que a noiva está com medo.

A filha ficou calada. Do rádio vinha um fado baixinho, de alguém que tinha perdido alguma coisa no mar.

Naquela noite, a mãe não dormiu. Ficou à janela vendo o rio escuro e teve uma espécie de sonho acordado. Viu-se com oito anos, a agulha na mão, a avó ao lado. Viu-se com vinte, a máquina nova comprada a prestações. Viu-se com quarenta, a costurar o vestido da filha para a formatura, chorando para dentro para não molhar o cetim. E viu-se com setenta, num lugar que não conhecia, sentada numa roda de pessoas mais novas, ensinando alguma coisa. Não sabia o quê. Mas as pessoas ouviam.

O tempo, naquela janela, não andava numa linha. Andava como a linha numa agulha: entrava, saía, voltava a entrar, e era assim que segurava o tecido.

De manhã, ela foi até a escola que ficava a duas ruas de casa e pediu informações sobre os cursos para adultos. A senhora do balcão, que devia ter a idade dela, perguntou:

— É para o seu filho?

— É para mim.

A senhora sorriu, e no sorriso havia um segredo partilhado entre duas mulheres que já tinham ouvido muitas vezes que era tarde.

— Então sente-se. Há tempo.

Ela se inscreveu num curso de acolhimento e cuidado de idosos. Não era costura, e era. Continuava a remendar, só que agora o tecido era outro. Gente que tinha sido rasgada pela solidão e precisava de alguém que ficasse meia hora a ouvir.

No dia da aula inaugural, a filha deixou-a à porta da escola, como ela tinha deixado a filha tantas vezes.

— Mãe.

— Diz.

— Tem cuidado na travessia.

As duas riram. E a mãe entrou, com cinquenta e dois anos e um caderno novo debaixo do braço, para recomeçar por onde sempre tinha começado: pela agulha.

Bairo conta que se reinventou mais de uma vez, e que cada porta fechada deixou alguma coisa na mão dele. Leia: O não é a base do sim.

O caminho

A idade não apaga o que você aprendeu; ela é a matéria-prima do recomeço. Olhe para o que fazia de verdade, por trás do ofício, e procure onde isso ainda é preciso. Comece pequeno, com um curso, uma conversa, uma porta perto de casa.

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